Portanto, não é de admirar se condenarmos e desejarmos que seja banida de
nosso meio esta confissão auricular, coisa assaz pestilenta e em tantos aspectos
nociva à Igreja. Pois se fosse propriamente coisa indiferente, tudo bem; uma vez
que, no entanto, é de nenhum proveito e destituído fruto, ao contrário, tem dado
causa a tanta impiedade, sacrilégios, erros, quem não é de parecer que seja abolida
inteiramente? É verdade que enumeram alguns usos que apregoam como extremamente
frutíferos, porém esses ou são falsos ou absolutamente de nenhum valor. A
um desses usos revestem, particularmente, de singular prerrogativa, a saber, ser
grave castigo o pejo daquele que se confessa, mercê do qual não só o pecador se faz
mais precavido para o futuro, mas também antecipa a vingança de Deus, punindo-se
a si mesmo. Como se não fosse suficientemente grande vergonha humilharmos a um
homem, enquanto o convocamos a esse supremo tribunal celeste, ou, seja, ao escrutínio
direto de Deus. De fato, teríamos avançado muito se deixássemos de pecar
pela vergonha de um homem e não nos enrubescêssemos de ter a Deus por testemunha
de nossa má consciência!
Se bem que isso também é absolutamente falso, porque por toda parte se pode
ver que nada causa maior confiança ou volúpia de pecar do que, feita confissão ao
sacerdote, os homens pensem poder “enxugar a boca e dizer: Não o fiz” [Pv 30.20].
Não só se fazem mais ousados a pecar durante todo o ano, até se confessarem, mas,
despreocupados de confissão para o restante tempo do ano, após se terem confessado,
nunca suspiram a Deus, jamais caem em si; ao contrário, amontoam pecados
sobre pecados, até que, segundo supõem, a todos vomitam de uma só vez. Quando,
porém, os tenham vomitado, a si parecem desonerados de seu fardo, e de ter transferido
de Deus o julgamento que deferiram ao sacerdote, e ter induzido esquecimento
a Deus, quando tomaram o sacerdote por confidente.
Quem, de fato, vê com alegria tornar-se iminente o dia de confissão? Quem
avança de ânimo jubiloso a confessar-se e não se aproxima da confissão antes de
mau grado e se assemelha ao que reluta, como que, retorcendo o pescoço, se deixa
arrastar à prisão, a não ser, talvez, os próprios sacerdotes, que voluptuosamente se
deleitam nas narrações mútuas de seus deslizes, como se fossem anedotas jocosas?
Não borrarei muitas folhas de papel fazendo referências às monstruosas abominações
que na confissão auricular prolifera. Digo apenas isto: se aquele santo varão não agiu irrefletidamente, o qual, à vista de um só rumor de fornicação, baniu a
confissão de sua igreja, ou, antes, da memória dos seus, somos hoje muito mais
solícitos a fazer outro tanto pelos infindos estupros, adultérios, incestos, lenocínios.
João Calvino