Daí nascia aquela
ponderação da qual os fiéis se serviam para consolo das misérias e remédio da
resignação: “Um momento na indignação do Senhor; a vida em sua misericórdia”
[Sl 30.5]. Como limitavam a um momento as aflições aqueles que eram afligidos
por quase a vida inteira? Onde viam tão longa duração da divina benignidade, da
qual mal provavam o mais leve gosto? Se porventura estivessem presos à terra, nada
disso poderiam achar. Visto que contemplavam o céu, sabiam que os santos são
atormentados pelo Senhor “com a cruz” por apenas um momento; que as
misericórdias com que são cumulados são perpétuas. Por outro lado, anteviam a
ruína, ruína eterna e que jamais haverá de findar-se, dos ímpios, os quais,
como em um sonho, haveriam de ser felizes só por um dia. Donde estas palavras:
“A memória do justo será em bênção, mas o nome dos ímpios apodrecerá” [Pv
10.7]; “Preciosa é à vista do Senhor a morte dos santos” [Sl 116.15], “péssima
é a morte dos pecadores” [Sl 34.21]. Igualmente, em Samuel: “O Senhor guardará
os pés dos santos e os ímpios ficarão emudecidos nas trevas” [1Sm 2.9].
Palavras estas que deixam claro que aqueles haviam conhecido muito bem que, por
mais variadamente que fossem os santos levados em volta, seu fim último, no
entanto, seria a vida e a salvação; que a felicidade dos ímpios era uma senda
amena pela qual, pouco a pouco, deslizavam à voragem da morte. Por isso, à
morte destes chamavam “a destruição dos incircuncisos” [Ez 28.10; 31.18;
32.19-21], como daqueles a quem fossse cortada a esperança da ressurreição.
Portanto, Davi não pôde cogitar de nenhuma imprecação mais grave do que esta:
“Sejam apagados do livro da vida e com os justos não sejam arrolados” [Sl
69.28].
João Calvino