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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A VIDA FUTURA NOS ARROUBOS DE DAVI E NO VATICÍNIO DE ISAÍAS


Ainda não avançamos além de Moisés, a quem estes dizem não haver exercido outra função que, pela fertilidade da terra e pela abundância de todas as coisas, induzir um povo carnal a adorar a Deus. E, no entanto, a não ser que alguém refugue deliberadamente a luz que se oferece, já claramente se depara a declaração do pacto espiritual. Pois, se descemos aos profetas, aí se exibe, com o mais pleno fulgor, não só a vida eterna, como também o reino de Cristo. Em primeiro lugar Davi, que aos demais foi antecessor no tempo, fala em figuras dos mistérios celestiais conforme a disposição divina e com maior obscuridade, contudo com quanta clareza e certeza dirige tudo quanto diz a este ponto! Até onde tenha ele estimado a terrena habitação, atesta-o esta resenha: “Aqui sou forasteiro e peregrino, como o foram todos os meus pais” [Sl 39.12]; “Vaidade é todo homem vivente; como uma sombra anda cada um à volta. E, agora, qual é minha expectação, ó Senhor? Minha esperança está posta em ti” [Sl 39.5-7]. Positivamente, aquele que, havendo confessado não haver nada sólido ou estável na terra, entretanto em Deus retém a firmeza da esperança, contempla sua felicidade posta em outra parte. A esta contemplação costuma recordar os fiéis, sempre que deseja realmente consolá-los. Pois, em outro lugar, depois de falar da brevidade e da volátil e efêmera expressão da vida humana, acrescenta: “Mas, a misericórdia do Senhor perdura para sempre sobre aqueles que o temem” [Sl 103.17]. Semelhante é o que se lê também no Salmo [102.25-28]: “No princípio, ó Senhor, tu lançaste os fundamentos da terra, e obra de tuas mãos são os céus; eles perecerão, tu, porém, permaneces; como um vestido envelhecerão, e como uma roupa os mudarás. Tu, contudo, permaneces o mesmo e teus anos não terão fim; os filhos de teus servos habitarão seguros e sua descendência se firmará diante de ti.” Se ante a destruição do céu e da terra os piedosos não deixam de permanecer firmes perante o Senhor, segue-se que a salvação lhes é associada à eternidade de Deus. Contudo, esta esperança não pode, de modo algum, subsistir, a menos que descanse na promessa que lemos em Isaías [51.6]: “Os céus, diz o Senhor, dissipar-se-ão como fumaça, a terra gastar-se-á como uma vestimenta, e seus habitantes se desvanecerão como estas mesmas coisas; mi nha salvação, porém, será para sempre, e minha justiça não desvanecerá” – passagem na qual a perpetuidade da justiça e da salvação é atribuída não até onde residem em Deus, mas até onde são experimentadas pelos homens.

João Calvino