Ainda não avançamos
além de Moisés, a quem estes dizem não haver exercido outra função que, pela
fertilidade da terra e pela abundância de todas as coisas, induzir um povo
carnal a adorar a Deus. E, no entanto, a não ser que alguém refugue
deliberadamente a luz que se oferece, já claramente se depara a declaração do
pacto espiritual. Pois, se descemos aos profetas, aí se exibe, com o mais pleno
fulgor, não só a vida eterna, como também o reino de Cristo. Em primeiro lugar
Davi, que aos demais foi antecessor no tempo, fala em figuras dos mistérios
celestiais conforme a disposição divina e com maior obscuridade, contudo com
quanta clareza e certeza dirige tudo quanto diz a este ponto! Até onde tenha
ele estimado a terrena habitação, atesta-o esta resenha: “Aqui sou forasteiro e
peregrino, como o foram todos os meus pais” [Sl 39.12]; “Vaidade é todo homem
vivente; como uma sombra anda cada um à volta. E, agora, qual é minha
expectação, ó Senhor? Minha esperança está posta em ti” [Sl 39.5-7].
Positivamente, aquele que, havendo confessado não haver nada sólido ou estável
na terra, entretanto em Deus retém a firmeza da esperança, contempla sua
felicidade posta em outra parte. A esta contemplação costuma recordar os fiéis,
sempre que deseja realmente consolá-los. Pois, em outro lugar, depois de falar
da brevidade e da volátil e efêmera expressão da vida humana, acrescenta: “Mas,
a misericórdia do Senhor perdura para sempre sobre aqueles que o temem” [Sl
103.17]. Semelhante é o que se lê também no Salmo [102.25-28]: “No princípio, ó
Senhor, tu lançaste os fundamentos da terra, e obra de tuas mãos são os céus;
eles perecerão, tu, porém, permaneces; como um vestido envelhecerão, e como uma
roupa os mudarás. Tu, contudo, permaneces o mesmo e teus anos não terão fim; os
filhos de teus servos habitarão seguros e sua descendência se firmará diante de
ti.” Se ante a destruição do céu e da terra os piedosos não deixam de
permanecer firmes perante o Senhor, segue-se que a salvação lhes é associada à
eternidade de Deus. Contudo, esta esperança não pode, de modo algum, subsistir,
a menos que descanse na promessa que lemos em Isaías [51.6]: “Os céus, diz o
Senhor, dissipar-se-ão como fumaça, a terra gastar-se-á como uma vestimenta, e
seus habitantes se desvanecerão como estas mesmas coisas; mi nha salvação,
porém, será para sempre, e minha justiça não desvanecerá” – passagem na qual a
perpetuidade da justiça e da salvação é atribuída não até onde residem em Deus,
mas até onde são experimentadas pelos homens.
João Calvino