Enfim, transparece
claramente que por entre todos os afazeres da vida lhes foi posta diante dos
olhos a bem-aventurança da vida futura. Pois, a que propósito, com tanto
empenho, Jacó ambicionara a primogenitura e com tão grande risco a buscara, a
qual lhe haveria de acarretar o exílio e quase a perda da herança; na verdade,
nada de bom lhe haveria absolutamente de trazer, a não ser que tivesse os olhos
voltados para uma bênção mais alta? Que este era seu sentimento, declarou-o
nesta palavra que proferiu por entre seus derradeiros alentos: “Tua salvação
esperarei, ó Senhor” [Gn 49.18]. Que salvação poderia ele ter esperado, quando
percebia que estava a exalar a alma, a não ser que na morte visualizasse o
começo de uma nova vida? E por que haveríamos de argüir acerca dos santos e filhos
de Deus, se inclusive aquele que pretendia impugnar a verdade teve o mesmo
sentimento e o compreendeu assim?207 Pois, que entendia Balaão, quando
exclamava: “Morra a minha vida com a morte dos justos e que o fim me seja
semelhante ao deles” [Nm 23.10], senão que sentia o que Davi mais tarde
proclamou: “Preciosa é a morte dos santos à vista do Senhor [Sl 116.15];
péssima, porém, é a morte dos ímpios” [Sl 34.21]? Se o termo definitivo dos homens fosse a morte, certamente
não haveria lugar para indicar diferença alguma entre a do justo e a do ímpio.
No entanto, se lhes distingue pela sorte e condição diversas que lhes estão
preparadas a um ao outro depois da morte.
João Calvino