Realmente não se
podem entender de outra maneira as coisas que em diversos lugares Davi canta da
prosperidade dos fiéis, senão atribuindo-as à manifestação da glória celestial.
Desta natureza são: “O Senhor guarda as almas de seus santos; livra-los-á da
mão do pecador. A luz nasceu para o justo e para os retos de coração a alegria”
[Sl 97.10, 11]. Igualmente: “A justiça do piedoso permanece para todo o sempre;
sua forçaserá exaltada em glória; o anelo dos pecadores perecerá” [Sl 112.9,
10]. Também: “Na verdade, os justos confessarão teu nome; os retos habitarão
com tua presença” [Sl 140.13]. Ainda: “Em eterna lembrança estará o justo” [Sl
112.6]. Ademais: “O Senhor redimirá as almas de seus servos” [Sl 34.22]. A
verdade é que o Senhor às vezes deixa seus servos ao bel-prazer dos ímpios, não
só para que sejam por eles oprimidos, mas até estraçalhados e destruídos, permite
que os bons definhem em trevas e em imundície, enquanto que os ímpios quase
refulgem em meio às estrelas. Não os alegra a tal ponto com a serenidade de seu
semblante que desfrutem diariamente de deleite. Por isso, o mesmo Davi não
oculta que se os fiéis fixam seus olhos no estado deste mundo, seria uma
gravíssima tentação de dúvida, se Deus galardoa e recompensa a inocência. A tal
ponto prospera e floresce a impiedade, na maioria das vezes, enquanto é
oprimida a grei dos piedosos com ignomínia, pobreza, desprezo e toda espécie de
cruz! “Pouco faltou”, diz ele, “que se resvalasse meu pé, que escorregassem
meus passos, enquanto me abrasa ante a boa sorte dos estultos, enquanto vejo a
prosperidade dos réprobos” [Sl 73.2, 3]. Conclui, enfim, após a narração deste
paradoxo: “Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; até
que entrei no santuário de Deus; então entendi o fim deles” [Sl 73.16, 17].
João Calvino