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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

MAIS EXCLAMAÇÕES DE DAVI QUANTO À BEM-AVENTURANÇA DOS JUSTOS, NÃO POSSÍVEL NA MISÉRIA DESTA VIDA


Realmente não se podem entender de outra maneira as coisas que em diversos lugares Davi canta da prosperidade dos fiéis, senão atribuindo-as à manifestação da glória celestial. Desta natureza são: “O Senhor guarda as almas de seus santos; livra-los-á da mão do pecador. A luz nasceu para o justo e para os retos de coração a alegria” [Sl 97.10, 11]. Igualmente: “A justiça do piedoso permanece para todo o sempre; sua forçaserá exaltada em glória; o anelo dos pecadores perecerá” [Sl 112.9, 10]. Também: “Na verdade, os justos confessarão teu nome; os retos habitarão com tua presença” [Sl 140.13]. Ainda: “Em eterna lembrança estará o justo” [Sl 112.6]. Ademais: “O Senhor redimirá as almas de seus servos” [Sl 34.22]. A verdade é que o Senhor às vezes deixa seus servos ao bel-prazer dos ímpios, não só para que sejam por eles oprimidos, mas até estraçalhados e destruídos, permite que os bons definhem em trevas e em imundície, enquanto que os ímpios quase refulgem em meio às estrelas. Não os alegra a tal ponto com a serenidade de seu semblante que desfrutem diariamente de deleite. Por isso, o mesmo Davi não oculta que se os fiéis fixam seus olhos no estado deste mundo, seria uma gravíssima tentação de dúvida, se Deus galardoa e recompensa a inocência. A tal ponto prospera e floresce a impiedade, na maioria das vezes, enquanto é oprimida a grei dos piedosos com ignomínia, pobreza, desprezo e toda espécie de cruz! “Pouco faltou”, diz ele, “que se resvalasse meu pé, que escorregassem meus passos, enquanto me abrasa ante a boa sorte dos estultos, enquanto vejo a prosperidade dos réprobos” [Sl 73.2, 3]. Conclui, enfim, após a narração deste paradoxo: “Quando pensava em entender isto, foi para mim muito doloroso; até que entrei no santuário de Deus; então entendi o fim deles” [Sl 73.16, 17].

João Calvino