Se estes santos
patriarcas esperaram da mão de Deus uma vida bem-aventurada, o que é
absolutamente incontestável, eles não só cogitaram, como também contemplaram,
outra bem-aventurança além da vida terrena. O que também, magnificamente,
mostra o Apóstolo [Hb 11.9, 10, 13-16]. “Pela fé”, diz ele, “na terra da
promessa peregrinou Abraão como em terra estrangeira, habitando em tendas com
Isaque e Jacó, co-participantes da mesma herança. Pois aguardavam a cidade bem
fundamentada, cujo artífice e construtor é Deus. Nesta fé morreram todos estes,
não alcançando as promessas, mas divisando-as ao longe, e crendo nelas, e
confessando que eram
estrangeiros e peregrinossobre a terra. Com que dão a entender que estão a
buscar uma pátria. E se houvessem sido tocados de saudade daquela que haviam
deixado, havia oportunidade de retornar. Aspiravam, porém, a uma pátria melhor,
isto é, à celestial. Donde não se envergonha Deus de ser chamado o Deus deles,
pois que lhes preparou uma cidade.” Ora, teriam sido mais obtusos que estacas
de pau em perseguir tão pertinazmente as promessas de que nenhuma esperança
aparecia na terra, a não ser que houvessem esperado o cumprimento em outra
parte. Isto, na verdade, não sem razão insiste ele, acima de tudo, que
denominaram esta vida de uma peregrinação, exatamente como também Moisés
menciona [Gn 47.9]. Pois, se são peregrinos e forasteiros na terra de Canaã,
onde está a promessa do Senhor pela qual lhe foram constituídos herdeiros?
Portanto, está ele obviamente a indicar que olha mais longe, a saber, para a
posse que o Senhor lhes havia prometido. Pelo que, “não adquiriram sequer o
espaço de um pé” [At 7.5] na terra de Canaã, a não ser para sepultura, através
do quê atestavam esperar receber o fruto da promessa somente após a morte. E
esta é a causa por que de tão grande significação tenha Jacó estimado ser sepultado
ali, que a este compromisso obrigara com juramento ao filho José [Gn 47.29-31],
e por que José quis que para aí fossem transferidos, alguns séculos mais tarde,
os ossos há muito já reduzidos a cinza [Gn 50.25; Ex 13.19].
João Calvino