Total de visualizações de página

quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A CARREIRA TERRENA DE ISAQUE E DE JACÓ NÃO É MENOS UM CONTÍNUO DE TRIBULAÇÕES


Isaque, que é afligido de males menores, no entanto o menor prazer e alegria lhe custou grandes esforços.206 Também ele próprio experimenta estas tribulações que não permitem que o homem seja feliz na terra. A fome o faz fugir da terra de Canaã [Gn 26.1]; sua esposa lhe é arrebatada do convívio [Gn 26.7]; os vizinhos o molestam continuamente e o oprimem de todos os modos, de sorte que também se vê compelido a lutar por causa de água [Gn 26.15-21]; em seu lar, suporta grande porção de dissabores da parte das noras[Gn 26.34, 35]; é angustiado pela desavença dos filhos [Gn 27.41], nem consegue remediar tão grande mal, senão pelo exílio daquele a quem abençoara [Gn 28.1-5]. Jacó, porém, na verdade, nada mais é senão insigne exemplo de extrema desventura. Passa a mocidade no lar mui inquietamente, entre as ameaças e terrores do irmão primogênito, aos quais, por fim, é obrigado a ceder [Gn 27.41, 45]. Proscrito dos pais e do solo natal, além do amargo exílio, junto ao tio Labão não é acolhido mais afável e humanamente. Pouco é servir por sete anos duríssima e penosíssima servidão [Gn 29.20], senão que, com perverso dolo, é enganado no tocante a uma esposa [Gn 29.23-25]! Por amor da outra esposa, tem de entrar em nova servidão [Gn 29.27], em que, como ele próprio se queixa, é abrasado pelo calor do sol o dia inteiro; é compelido pela geada e pelo frio a manter-se inteiramente acordado durante a noite [Gn 31.40]. Enquanto suporta por vinte anos tão grande agrura de vida, é diariamente afligido de novas afrontas do sogro [Gn 31.41]. Nem está ele sossegado no próprio lar, quando se vê dividido e quase desfeito pelas animosidades, dissensões e ciúmes das esposas. Quando recebe ordem de regressar à terra natal, necessário se lhe faz engendrar uma saída semelhante a fuga ignominiosa [Gn 31.17- 21]. Contudo, nem ainda assim pode escapar à iniqüidade do sogro, do qual, no meio do caminho, se vê atribulado por suas acusações e ultrajes [Gn 31.23-32]. Sucede-lhe, logo após, muito mais severa dificuldade. Pois, enquanto vai ao encontro do irmão, tem à vista tantas mortes quantas possam ser preparadas por um homem cruel e inimigo. É, portanto, sobremodo torturado e dilacerado de terríveis temores durante todo o tempo que lhe aguarda a chegada [Gn 31.7, 11]. Quando lhe vem à presença, arroja-se-lhe aos pés como que semimorto, até que o sente mais propício do que havia ousado esperar [Gn 33.14]. Ademais, apenas acabara de entrar na terra, quando é privado de Raquel, a esposa especialmente amada[Gn 35.15- 20]. Subseqüentemente, ouve que fora dilacerado por uma fera o filho que amava acima dos demais [Gn 37.31-33], de cuja morte quão grande pesar haja padecido, declara ele próprio, pois, após lágrimas constantes, fecha obstinadamente o caminho a todas as consolações, nada mais a si deixando, senão que, a planger, desça ao filho à sepultura [Gn 37.34, 35]. Entrementes, o rapto e estupro da filha [Gn 34.2, 5], a audácia dos filhos em vingar esses atos, audácia que não só o fizera cair no desagrado entre todos os habitantes da região, como também lhe criara mui presente perigo de morte [Gn 34.30], quão grandes causas eram de ansiedade, de aflição, de enfado? Vem em seguida aquela horrenda ignomínia de Rubem, seu primogênito [Gn 35.22], de que nada podia acontecer mais grave. Ora, quando se coloca a violação da esposa entre os máximos infortúnios, que se haja de dizer quando esta hediondez foi perpetrada pelo próprio filho? Algum tempo depois, é a família contaminada por outroincesto [Gn 38.12-18], de sorte que tantos opróbrios abateriam um ânimo de outro modo mui firme e inquebrantado pelas calamidades. Já no fim da vida, enquanto procura aliviar a fome sua e dos seus, é golpeado pela notícia de novo infortúnio, quando vem a saber que outro filho está detido em prisão, para que receba de volta Benjamim, a quem é obrigado a confiar a outros, seu único encantamento [Gn 42.33–43.15]. Quem pensaria que em tão vultoso acervo de males se lhe propiciou um momento em que ao menos respirasse tranqüilamente? Portanto, ele próprio é a melhortestemunha a respeito de si mesmo, assevera a faraó que seus dias haviam sido breves e maus sobre a terra [Gn 47.9]. Quem declara haver atravessado a vida por entre contínuas adversidades, nega, evidentemente, haver usufruído essa prosperidade que lhe havia sido prometida pelo Senhor. Logo, ou Jacó era um mau e ingrato apreciador do favor de Deus, ou, com verdade, confessava publicamente haver sido desventurado sobre a terra. Se esta afirmação foi verdadeira, segue-se que ele não teve sua esperança fixa nas coisas terrenas.

João Calvino