Isaque, que é
afligido de males menores, no entanto o menor prazer e alegria lhe custou
grandes esforços.206 Também ele próprio experimenta estas tribulações que não
permitem que o homem seja feliz na terra. A fome o faz fugir da terra de Canaã
[Gn 26.1]; sua esposa lhe é arrebatada do convívio [Gn 26.7]; os vizinhos o
molestam continuamente e o oprimem de todos os modos, de sorte que também se vê
compelido a lutar por causa de água [Gn 26.15-21]; em seu lar, suporta grande
porção de dissabores da parte das noras[Gn 26.34, 35]; é angustiado pela
desavença dos filhos [Gn 27.41], nem consegue remediar tão grande mal, senão
pelo exílio daquele a quem abençoara [Gn 28.1-5]. Jacó, porém, na verdade, nada
mais é senão insigne exemplo de extrema desventura. Passa a mocidade no lar mui
inquietamente, entre as ameaças e terrores do irmão primogênito, aos quais, por
fim, é obrigado a ceder [Gn 27.41, 45]. Proscrito dos pais e do solo natal,
além do amargo exílio, junto ao tio Labão não é acolhido mais afável e
humanamente. Pouco é servir por sete anos duríssima e penosíssima servidão [Gn
29.20], senão que, com perverso dolo, é enganado no tocante a uma esposa [Gn
29.23-25]! Por amor da outra esposa, tem de entrar em nova servidão [Gn 29.27],
em que, como ele próprio se queixa, é abrasado pelo calor do sol o dia inteiro;
é compelido pela geada e pelo frio a manter-se inteiramente acordado durante a
noite [Gn 31.40]. Enquanto suporta por vinte anos tão grande agrura de vida, é
diariamente afligido de novas afrontas do sogro [Gn 31.41]. Nem está ele
sossegado no próprio lar, quando se vê dividido e quase desfeito pelas
animosidades, dissensões e ciúmes das esposas. Quando recebe ordem de regressar
à terra natal, necessário se lhe faz engendrar uma saída semelhante a fuga
ignominiosa [Gn 31.17- 21]. Contudo, nem ainda assim pode escapar à iniqüidade
do sogro, do qual, no meio do caminho, se vê atribulado por suas acusações e
ultrajes [Gn 31.23-32]. Sucede-lhe, logo após, muito mais severa dificuldade.
Pois, enquanto vai ao encontro do irmão, tem à vista tantas mortes quantas
possam ser preparadas por um homem cruel e inimigo. É, portanto, sobremodo
torturado e dilacerado de terríveis
temores durante todo o tempo que lhe aguarda a chegada [Gn 31.7, 11].
Quando lhe vem à presença, arroja-se-lhe aos pés como que semimorto, até que o
sente mais propício do que havia ousado esperar [Gn 33.14]. Ademais, apenas
acabara de entrar na terra, quando é privado de Raquel, a esposa especialmente
amada[Gn 35.15- 20]. Subseqüentemente, ouve que fora dilacerado por uma fera o
filho que amava acima dos demais [Gn 37.31-33], de cuja morte quão grande pesar
haja padecido, declara ele próprio, pois, após lágrimas constantes, fecha
obstinadamente o caminho a todas as consolações, nada mais a si deixando, senão
que, a planger, desça ao filho à sepultura [Gn 37.34, 35]. Entrementes, o rapto
e estupro da filha [Gn 34.2, 5], a audácia dos filhos em vingar esses atos,
audácia que não só o fizera cair no desagrado entre todos os habitantes da
região, como também lhe criara mui presente perigo de morte [Gn 34.30], quão
grandes causas eram de ansiedade, de aflição, de enfado? Vem em seguida aquela
horrenda ignomínia de Rubem, seu primogênito [Gn 35.22], de que nada podia
acontecer mais grave. Ora, quando se coloca a violação da esposa entre os
máximos infortúnios, que se haja de dizer quando esta hediondez foi perpetrada
pelo próprio filho? Algum tempo depois, é a família contaminada por
outroincesto [Gn 38.12-18], de sorte que tantos opróbrios abateriam um ânimo de
outro modo mui firme e inquebrantado pelas calamidades. Já no fim da vida,
enquanto procura aliviar a fome sua e dos seus, é golpeado pela notícia de novo
infortúnio, quando vem a saber que outro filho está detido em prisão, para que
receba de volta Benjamim, a quem é obrigado a confiar a outros, seu único
encantamento [Gn 42.33–43.15]. Quem pensaria que em tão vultoso acervo de males
se lhe propiciou um momento em que ao menos respirasse tranqüilamente?
Portanto, ele próprio é a melhortestemunha a respeito de si mesmo, assevera a
faraó que seus dias haviam sido breves e maus sobre a terra [Gn 47.9]. Quem
declara haver atravessado a vida por entre contínuas adversidades, nega,
evidentemente, haver usufruído essa prosperidade que lhe havia sido prometida
pelo Senhor. Logo, ou Jacó era um mau e ingrato apreciador do favor de Deus,
ou, com verdade, confessava publicamente haver sido desventurado sobre a terra.
Se esta afirmação foi verdadeira, segue-se que ele não teve sua esperança fixa
nas coisas terrenas.
João Calvino