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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

O EVANGELHO NÃO SE CONTRAPÕE À LEI, NEM A EXCLUI


Daqui também se refuta o erro daqueles que jamais de outro modo comparam a lei com o evangelho, contrapondo os méritos das obras à imputação gratuita da justiça. Certamente que não se deve rejeitar esta antítese, pois, com freqüência, Paulo entende sob o termo lei a norma do justo viver, pela qual Deus exige de nós o que é seu, nenhuma esperança de vida outorgando, se não lhe obedecemos integralmente, e por sua vez acrescenta maldição, se nos desviamos mesmo que seja apenas um mínimo. Isto de fato o faz Paulo, onde contende que agradamos a Deus não por efeito de obras e somos tidos por justos através de seu perdão, porque em parte alguma se encontra a promessa de recompensa pela observância da lei. Com muita razão, pois, Paulo põe como contrárias entre si a justiça da lei e a justiça do evangelho. Mas, o evangelho não sucedeu a toda a lei, a tal ponto que apresentasse um meio diferente de salvação, senão que, antes, confirmasse e mostrasse ser relevante tudo quanto ela havia prometido, e desse corpo a seus delineamentos. Pois, quando diz que a lei e os profetas haviam vigorado até João [Lc 16.16], Cristo não está declarando ser os pais dignos de maldição, da qual não podem fugir os servos da lei; ao contrário, significa que foram instruídos só em rudimentos, de sorte que permanecessem muito abaixo da sublimidade do ensino do evangelho. Por isso, chamando ao evangelho “o poder de Deus para a salvação de todo o que crê” [Rm 1.16], Paulo acrescenta, pouco depois, que ele tem o testemunho da parte da lei e dos profetas [Rm 3.21]. Aliás, no final desta mesma Epístola [Rm 16.25, 26], ainda que a ensinar que a pregação de Jesus Cristo é a revelação do mistério guardado em silêncio durante os tempos eternos, atenua esta postulação com uma explicação anexa, ensinando que esse mistério se manifestou por meio das Escrituras proféticas.
Do que concluímos que onde se trata de toda a lei, dela difere o evangelho só no que respeita a uma clara manifestação. Ademais, em razão da inestimável afluência da graça que nos foi revelada em Cristo, não sem razão se diz que, por sua vinda, foi erigido na terra o reino celestial de Deus [Mt 12.28].

João Calvino