Daqui também se
refuta o erro daqueles que jamais de outro modo comparam a lei com o evangelho,
contrapondo os méritos das obras à imputação gratuita da justiça. Certamente
que não se deve rejeitar esta antítese, pois, com freqüência, Paulo entende sob
o termo lei a norma do justo viver, pela qual Deus exige de nós o que é seu,
nenhuma esperança de vida outorgando, se não lhe obedecemos integralmente, e
por sua vez acrescenta maldição, se nos desviamos mesmo que seja apenas um
mínimo. Isto de fato o faz Paulo, onde contende que agradamos a Deus não por
efeito de obras e somos tidos por justos através de seu perdão, porque em parte
alguma se encontra a promessa de recompensa pela observância da lei. Com muita
razão, pois, Paulo põe como contrárias entre si a justiça da lei e a justiça do
evangelho. Mas, o evangelho não sucedeu a toda a lei, a tal ponto que
apresentasse um meio diferente de salvação, senão que, antes, confirmasse e
mostrasse ser relevante tudo quanto ela havia prometido, e desse corpo a seus
delineamentos. Pois, quando diz que a lei e os profetas haviam vigorado até
João [Lc 16.16], Cristo não está declarando ser os pais dignos de maldição, da
qual não podem fugir os servos da lei; ao contrário, significa que foram
instruídos só em rudimentos, de sorte que permanecessem muito abaixo da
sublimidade do ensino do evangelho. Por isso, chamando ao evangelho “o poder de
Deus para a salvação de todo o que crê” [Rm 1.16], Paulo acrescenta, pouco
depois, que ele tem o testemunho da parte da lei e dos profetas [Rm 3.21].
Aliás, no final desta mesma Epístola [Rm 16.25, 26], ainda que a ensinar que a
pregação de Jesus Cristo é a revelação do mistério guardado em silêncio durante
os tempos eternos, atenua esta postulação com uma explicação anexa, ensinando
que esse mistério se manifestou por meio das Escrituras proféticas.
Do que concluímos que
onde se trata de toda a lei, dela difere o evangelho só no que respeita a uma
clara manifestação. Ademais, em razão da inestimável afluência da graça que nos
foi revelada em Cristo, não sem razão se diz que, por sua vinda, foi erigido na
terra o reino celestial de Deus [Mt 12.28].
João Calvino