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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A FALÁCIA DE SERVETO DE QUE O EVANGELHO ABOLIU TODAS AS PROMESSAS DA LEI


Impõe-se-nos, entretanto, precaver-nos da diabólica imaginação de Serveto, que, enquanto pretende exaltar a grandeza da graça de Cristo, ou, pelo menos, finge querer, abole totalmente as promessas, como se chegassem ao fim juntamente com a lei. Pretexta ele que pela fé no evangelho se nos depara o cumprimento de todas as promessas. Como se, na verdade, nenhuma distinção haja entre nós e Cristo! Com efeito, frisei pouco antes que Cristo nada deixou pendente de toda a suma de nossa salvação. Mas, disto se infere erroneamente que já nos apossamos dos benefícios outorgados por ele, como se fosse falsa essa afirmação de Paulo, de que nossa salvação está escondida na esperança [Rm 8.24; Cl 3.3]. Confesso, sem dúvida, que ao crermos em Cristo passamos, a um tempo, da morte para a vida. Importa-nos, entretanto, atentar, ao mesmo tempo, para esta observação de João: embora saibamos que somos filhos de Deus, contudo ainda não foi evidenciado o que havemos de ser, até que venhamos a ser semelhantes a ele, quando, de fato, o veremos como ele é [1Jo 3.2]. Logo, ainda que no evangelho Cristo nos ofereça a atual plenitude de bênçãos espirituais, contudo a concretização jaz sempre sob a custódia da esperança, até que, despojados da carne corruptível, sejamos transfigurados na glória daquele que vai a nossa frente. Enquanto isso, nos ordena o Espírito Santo a reclinarmos sobre as promessas, a cuja autoridade entre nós deve conter todos os ladridos desse cão imundo. Pois, como Paulo o atesta, a piedade tem a promessa tanto da vida futura quanto da vida presente [1Tm 4.8], por cuja razão ele se gloria de ser Apóstolo de Cristo segundo a promessa da vida, que nele está [2Tm 1.1]. E, em outro lugar [2Co 7.1], insiste em que temos as mesmas promessas com que foram aquinhoados os santos outrora. Enfim, estatui ser esta a suma da felicidade: que já fomos selados com o Espírito da Promessa, o Espírito Santo [Ef 1.13]. De fato, tampouco fruímos a Cristo de outra maneira, senão até onde o abraçamos vestido em suas promessas. Pelo que acontece que ele, na verdade, habite em nosso coração e, todavia, dele nos distanciemos, porquanto “andamos por fé e não por visão” [2Co 5.7]. Nem se ajustam mal entre si estas duas coisas: possuirmos nós em Cristo tudo quanto contempla à perfeição da vida celeste e, no entanto, ser a fé a visão de bens que ainda não se vêem” [Hb. 11.1]. Que se note apenas uma diferença na natureza ou qualidade das promessas: que o evangelho mostra com o dedo o que a lei vislumbrou sob a forma de tipos.

João Calvino