Para refutar esta
postulação de Paulo objetam, na verdade, o que Cristo diz: “Vossos pais comeram
o maná no deserto, e morreram” [Jo 6.49] e “Quem come minha carne, não morrerá jamais” [Jo 6.54]. Estas
duas afirmações se conciliam entre si sem nenhuma dificuldade. Porquanto estava
o Senhor falando a ouvintes que buscavam fartar-se apenas do alimento do ventre
e não se preocupavam com o verdadeiro alimento da alma, lhes acomoda
convenientemente a linguagem à capacidade, aliás, estatui especialmente conforme
ao entendimento deles a comparação do maná e de seu corpo. Requeriam que, no
interesse de granjear autoridade para si, comprovasse seu poder com algum
milagre, o qual Moisés realizara no deserto, quando do céu obtivera o maná. No
maná, porém, nada apreendiam senão o remédio à fome corpórea de que o povo
estava então sendo afligido. Àquele mistério mais sublime que Paulo contempla
não penetravam. Portanto, para demonstrar quão eminente benefício devem dele
esperar mais do que aquele que proclamavam ser conferido por Moisés a seus
pais, Cristo engendra esta comparação. Se, em vossa opinião, foi grande e
memorável milagre que a seu povo, para que não perecesse pela fome no deserto,
pela instrumentalidade de Moisés subministrou o Senhor o celeste alimento, com que
o sustentasse por breve tempo, concluí daqui quão mais excelente é o alimento
que confere a imortalidade. Vemos, assim, por que o Senhor deixou de parte o
que era essencial no maná e lhe assinalou apenas a utilidade de menos
expressão. Isto é, porque os judeus, como que em ingente esforço de
incriminá-lo, jogaram contra ele Moisés, que havia socorrido à necessidade do
povo com o remédio do maná, responde-lhes que ele era o ministrante de uma
graça muito superior, diante da qual deve, com razão, depreciar-se o sustento
corpóreo do povo, o único que tanto estimavam. Porquanto sabia que o Senhor,
quando fazia chover do céu o maná, não havia derramado apenas o alimento do
ventre, mas também o havia dispensado como um mistério espiritual, para
prefigurar a vivificação em espírito que se tem em Cristo, Paulo não
negligencia este aspecto, que era o mais digno de consideração. Pelo que se
conclui, certa e claramente, que não só foram comunicadas aos judeus as mesmas
promessas de vida eterna e celestial com que o Senhor nos digna agora, mas
também foram elas seladas com sacramentos verdadeiramente espirituais. Acerca
desta matéria argúi extensivamente Agostinho contra Fausto, o maniqueu.
João Calvino