Pois o Apóstolo nos
equiparou aos israelitas, não somente na graça do pacto, mas também no
significado dos sacramentos. Ora, querendo atemorizar aos coríntios com os
exemplos das penas com as quais a Escritura registra ter sido aqueles outrora
castigados, para que não incorressem em transgressões semelhantes, parte ele
desta premissa: não há por que vindicarmos para nós qualquer prerrogativa que
nos livre da vingança de Deus, a qual aqueles sofreram, quando não só os cercou
o Senhor dos mesmos benefícios, mas também manifestou sua insigne graça entre
eles pela instrumentalidade dos mesmos símbolos. Como se estivesse a dizer: Se
confiais que estais fora de perigo só porque não apenas o Batismo com que
fostes selados, mas também a Ceia de que participais diariamente, têm
excelentes promessas, enquanto isso, desprezada a bondade de Deus, vos
entregais desenfreadamente à dissolução, sabei que os judeus nem mesmo precisaram
de tais símbolos, contra quem, no entanto, a despeito disso, o Senhor executou
mui severamente seus juízos. Foram batizados na travessia do mar e na nuvem,
pela qual eram protegidos do ardor do sol. Essa travessia foi, dizem, um
batismo carnal, que só em certa medida corresponde ao nosso, espiritual. Se se
recebe isso por verdadeiro, não procederia o argumento do Apóstolo, que aqui
quer alijar os cristãos que se julguem superar os judeus pelo privilégio do
batismo. Nem é susceptível a esta sutileza o que imediatamente segue, a saber,
haverem eles comido conosco o mesmo alimento espiritual e haverem conosco
bebido a mesma bebida espiritual [1Co 10.3, 4], que interpreta como se
referindo a Cristo.
João Calvino