Agora, o que é o
ponto capital nesta controvérsia, examinemos se porventura os próprios fiéis
também foram ou não assim instruídos pelo Senhor para que sentissem haver para
eles, em outra parte, uma vida melhor, e, relegada a um plano inferior a
existência terrena, tivessem em consideração essa outra. Em primeiro lugar, a
condição do viver que lhes fora divinamente imposta era um exercício contínuo
em virtude do qual fossem lembrados de que eram de todos os mais miseráveis,
caso fossem felizes apenas nesta vida. Adão, só da lembrança da felicidade
perdida, infelicíssimo a custo sustenta sua pobreza com angustiantes labores, e
para que, pela maldição de Deus, não fosse oprimido só nos labores das mãos,
mesmo daquilo do que lhe restava consolação experimenta extrema tristeza. De
seus dois filhos, um lhe é arrebatado pelo nefando ato de parricídio do irmão
[Gn 4.8] e tem por sobrevivente aquele cuja presença, com razão, detesta e
receia. Abel, cruelmente trucidado na própria flor da idade, é um exemplo da
calamidade humana. Enquanto, despreocupadamente, aos deleites se entrega o
mundo todo, consome Noé, com grande afadigamento, boa parte da vida a construir
a arca. O fato de assim escapar à morte, isto lhe sucede com maiores
atribulações do que se cem mortes ele tivesse que enfrentar. Pois, além de a
arca lhe ser como que um sepulcro por dez meses, nada pode ser mais
desagradável que ser retido por tanto tempo quase chafurdado nos estrumes dos
animais. Depois que, a duras penas, a tão grandes dificuldades venceu, incide
em nova matéria de tristeza: se vê diante da mofa do próprio filho e é obrigado
a amaldiçoar com sua própria boca àquele a quem, por grande benefício de Deus,
havia recebido salvo do dilúvio [Gn 9.24, 25]!
João Calvino