Acresce a isso que
ele não só se atestava ser-lhes Deus, como também prometia que haveria de o ser
sempre, para que sua esperança, não contente com os bens presentes, se estendesse
até a eternidade. Ademais, que entre eles isso teria significado a referência
do tempo futuro, no-lo mostram muitas passagens, onde os fiéis se consolam de
que Deus jamais lhes haveria de faltar, não apenas em meio a males presentes,
mas ainda em relação ao porvir. Entretanto, agora, e esta era a segunda parte
da promessa, ainda mais claramente os confirmava quanto a haver-se para com
eles de prolongar a bênção de Deus para além dos limites da vida terrena:
“Serei o Deus de vossa posteridade depois de vós” [Gn 17.7]. Ora, se haveria de
declarar sua benevolência para com os mortos em fazer o bem aos pósteros, muito
menos haveria de faltar o favor para com eles próprios. Pois Deus não é como os
homens que transferem seu afeto aos filhos dos amigos, visto que, pela morte,
se lhes interrompe a oportunidade de que desempenhem suas obrigações para com
aqueles a quem queriam bem. Mas Deus, cuja beneficência não é impedida pela
morte, realmente não detrai aos mortos o fruto de sua misericórdia, a qual, em
atenção a eles, derrama a mil gerações [Ex 20.6]. Em virtude desta prova assaz
evidente, portanto, queria recomendar-lhes o Senhor a grandeza e afluência de
sua bondade, que haveriam de sentir após a morte, quando a descrevia como que a
transbordar a toda a descendência. Com efeito, a veracidade desta promessa
então a selou o Senhor, e como que lhe exibiu o cumprimento, quando, muito
depois da morte destes, o denominavam o Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó [Ex
3.6]. E então? Não era, porventura, ridícula essa designação, se haviam
perecido? Ora, teria sido exatamente como se assim houvesse falado: “Eu sou
Deus daqueles que não existem.” Daí narram os evangelistas [Mt 22.23- 32; Lc
20.27-38] que com este exato argumento os saduceusforam por Cristo acossados,
isto é, individualidades que haviam aprendido do próprio Moisés que “todos os
santos lhe estão na mão” [Dt 33.3], de sorte que não pudessem, de fato, negar
que a ressurreição dos
mortos fora atestada por Moisés. Donde era de se concluir que, na verdade, não
se extinguem na morte aqueles a quem receberam sob sua tutela, guarda e
proteção é Aquele que é o árbitro da morte e da vida.
João Calvino