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quinta-feira, 9 de agosto de 2018

A VIDA TERRENA DE ABRAÃO É UMA SEQÜÊNCIA DE DURAS PROVAÇÕES


Se lhe contemplamos a fé, a qual nos é proposta como o melhor modelo do crer, Abraão, em cuja linhagem, além de tudo, nos importa ser contados para que sejamos filhos de Deus, por certo nos deve ser um em dez miríades. Entretanto, que coisa pode parecer mais contra a razão o fato de Abraão ser o pai dos crentes [Gn 17.5], e não tenha entre eles sequer um espaço? Com efeito, de seu número, na verdade de sua mais elevada posição de honra, não pode ser ele excluído sem que extinta seja toda a Igreja. Agora, no que lhe tange às experiências da vida: quando é primeiramente chamado pelo imperativo de Deus [Gn 12.1], é arrancado da pátria, da parentela, dos amigos, os elementos em que pensam os homens estar a essencial doçura da vida, como se Deus, com deliberada intenção, o quisesse despojar de todos os deleites do viver. Tão logo entrou na terra em que é mandado habitar, é daí escorraçado pela fome [Gn 12.10]. A buscar ajuda, refugia-se ali onde, para que se conserve incólume, tem necessariamente de prostituir a esposa [Gn 12.11-15], o que lhe teria sido, talvez, mais amargo que muitas mortes. Quando retornou à terra de sua morada, de novo é daí expelido pela fome. Que natureza de felicidade é habitar essa terra onde tantas vezes se tem de passar fome, de fato até mesmo perecer por falta de alimento, a menos que daí fujas? Ao mesmo extremo de necessidade é reduzido, igualmente, junto a Abimeleque, pois, para salvar a cabeça, lhe é necessário que perca a esposa [Gn 20.1, 2]. Enquanto, por muitos anos, incerto vagueia por aqui e por ali, se vê compelido, pelas constantes rixas dos servos, a afastar de si o sobrinho, ao qual tinha em lugar de filho [Gn 13.5-9], separação esta que sem dúvida sentiu tanto como se lhe amputasse um de seus próprios membros.205 Pouco depois, ouve ter ele sido levado cativo por inimigos [Gn 14.12]. Para onde quer que se encaminhe, encontra vizinhos de cruel desumanidade, que não lhe permitem sequer beber água dos poços cavados, certamente com grande trabalho. Pois, nem lhes teria reavido o uso da parte do rei de Gerar, se não fora obstado anteriormente [Gn 21.25-30]. Então, quando foi chegando a desgastada velhice, o que esta idade tem mais de desagradável e de mais amargo, se vê onerado pela falta de filhos, até que, destituído de esperança, gera a Ismael [Gn 16.15], cujo nascimento, entretanto, redime a alto custo, enquanto se cansa das recriminações de Sara, como se, fomentando a contumácia da escrava, fosse ele próprio a causa da perturbação doméstica. Nasce, por fim, Isaque [Gn 21.2, 3], todavia com este preço: que o primogênito Ismael seja banido e seja lançado fora quase como um inimigo, na condição de um enjeitado [Gn 21.9-12]. Quando Isaque é deixado só, em quem repouse a cansada velhice do bom varão, pouco depois recebe ordem de sacrificá-lo [Gn 22.1, 2]. O que de mais calamitoso pode a mente humana cogitar que um pai vir a ser o carrasco do próprio filho? Se Isaque fosse arrebatado por uma enfermidade, quem não teria julgado ser Abraão o mais desgraçado ancião, a quem um filho lhe fora em zombaria, e por causa do qual se lhe duplicaria a dor da falta de descendência? Se porventura fosse morto por algum estranho, o infortúnio teria sido intensificado muitíssimo pela indignidade do desfecho. Mas isto supera a todos os exemplos de ignomínia: ser sacrificado pela mão do próprio pai!
Enfim, Abraão foi a tal ponto acossado e atribulado em todo o decurso da vida, que, se alguém porventura queira pintar numa tela o exemplo de uma vida calamitosa, certamente não achará nada mais apropriado. Nem objete alguém que ele não foi totalmente desafortunado, uma vez que, afinal, emergira venturosamente de tantas e tão grandes tempestades. Pois não diremos que leva uma vida ditosa aquele que moureje laboriosamente por infinitas dificuldades ao longo do tempo, mas aquele que desfrute tranqüilamente dos bens presentes, sem a sensação dos males.

João Calvino