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domingo, 5 de agosto de 2018

O EVANGELHO É A CLARA MANIFESTAÇÃO DO MISTÉRIO DE CRISTO


Com efeito, recebo o evangelho como a clara manifestação do mistério de Cristo. E uma vez que o evangelho é chamado por Paulo “a doutrina da fé” (1Tm 4.6], reconheço, na verdade, que se lhe contam como partes todas e quaisquer promessas que amíúde ocorrem na lei acerca da graciosa remissão dos pecados, mediante as quais Deus reconcilia os homens a si. Pois aí opõe a fé aos terrores pelos quais é a consciência oprimida e atormentada, caso a salvação seja buscada nas obras. Donde se segue que, tomando-se o termo evangelho em sentido lato, nele se compreendem os testemunhos de sua misericórdia e de seu paterno favor, que Deus outrora outorgara aos patriarcas. Digo, porém, que o termo se aplica, por excelência, à promulgação da graça exibida em Cristo, e isto foi recebido não apenas pelo uso comum, mas compete também à autoridade de Cristo e dos apóstolos. Donde isto lhe é atribuído como próprio, a saber, haver ele pregado o evangelho do reino [Mt 4.17, 23; 9.35; Mc 1.14]. E Marcos prefacia seu evangelho deste modo: Começo do evangelhho de Jesus Cristo [Mc 1.1]. Aliás, nem se faz necessário coligir passagens com as quais se comprove matéria mais do que suficientemente notória. “Portanto, com sua vinda, Cristo trouxe à luz, mediante o evangelho, a vida e a imortalidade” [2Tm 1.10]. Com estas palavras, não entende Paulo que os pais tenham sido submergidos nas trevas da morte até que o Filho de Deus se revestisse de carne; pelo contrário, vindicando ao evangelho esta prerrogativa de honra, ensina que ele foi uma nova e insólita modalidade de embaixada, pela qual Deus cumpriu o que havia prometido, de sorte que na pessoa do Filho se patenteasse a veracidade das promessas. Ora, ainda que os fiéis tenham sempre experimentado ser verdadeira essa afirmação de Paulo, de que em Cristo todas as promessas são sim e amém [2Co 1.20], porquanto lhes foram seladas no coração, entretanto, visto que todos os requisitos de nossa salvação os cumpriu em sua carne, a própria manifestação viva dessas coisas obteve, com justiça, novo e singular louvor. Do que procede este pronunciamento de Cristo: “Doravante, vereis os céus abertos e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem” [Jo 1.51]. Pois, embora pareça estar aludindo à escada mostrada em visão ao patriarca Jacó [Gn 28.12], está, contudo, enaltecendo a excelência superior de sua vinda com esta nota: que ele nos abriu a portados céus, para que o ingresso se nos patenteie familiar.

João Calvino