Com efeito, recebo o
evangelho como a clara manifestação do mistério de Cristo. E uma vez que o
evangelho é chamado por Paulo “a doutrina da fé” (1Tm 4.6], reconheço, na
verdade, que se lhe contam como partes todas e quaisquer promessas que amíúde
ocorrem na lei acerca da graciosa remissão dos pecados, mediante as quais Deus
reconcilia os homens a si. Pois aí opõe a fé aos terrores pelos quais é a
consciência oprimida e atormentada, caso a salvação seja buscada nas obras.
Donde se segue que, tomando-se o termo evangelho em sentido lato, nele se
compreendem os testemunhos de sua misericórdia e de seu paterno favor, que Deus
outrora outorgara aos patriarcas. Digo, porém, que o termo se aplica, por
excelência, à promulgação da graça exibida em Cristo, e isto foi recebido não
apenas pelo uso comum, mas compete também à autoridade de Cristo e dos
apóstolos. Donde isto lhe é atribuído como próprio, a saber, haver ele pregado
o evangelho do reino [Mt 4.17, 23; 9.35; Mc 1.14]. E Marcos prefacia seu
evangelho deste modo: Começo do evangelhho de Jesus Cristo [Mc 1.1]. Aliás, nem
se faz necessário coligir passagens com as quais se comprove matéria mais do
que suficientemente notória. “Portanto, com sua vinda, Cristo trouxe à luz,
mediante o evangelho, a vida e a imortalidade” [2Tm 1.10]. Com estas palavras,
não entende Paulo que os pais tenham sido submergidos nas trevas da morte até
que o Filho de Deus se revestisse de
carne; pelo contrário, vindicando ao evangelho esta prerrogativa de
honra, ensina que ele foi uma nova e insólita modalidade de embaixada, pela
qual Deus cumpriu o que havia prometido, de sorte que na pessoa do Filho se
patenteasse a veracidade das promessas. Ora, ainda que os fiéis tenham sempre
experimentado ser verdadeira essa afirmação de Paulo, de que em Cristo todas as
promessas são sim e amém [2Co 1.20], porquanto lhes foram seladas no coração,
entretanto, visto que todos os requisitos de nossa salvação os cumpriu em sua
carne, a própria manifestação viva dessas coisas obteve, com justiça, novo e
singular louvor. Do que procede este pronunciamento de Cristo: “Doravante, vereis
os céus abertos e os anjos de Deus subindo e descendo sobre o Filho do homem”
[Jo 1.51]. Pois, embora pareça estar aludindo à escada mostrada em visão ao
patriarca Jacó [Gn 28.12], está, contudo, enaltecendo a excelência superior de
sua vinda com esta nota: que ele nos abriu a portados céus, para que o ingresso
se nos patenteie familiar.
João Calvino