Total de visualizações de página

domingo, 5 de agosto de 2018

A MALEDICÊNCIA E A MORDACIDADE SÃO VIOLAÇÕES DO NONO MANDAMENTO


E, contudo, é de admirar com quão indolente despreocupação, a cada passo, se peca nesta matéria, de tal sorte que raríssimosse acham os que não padeçam notoriamente desta enfermidade. A tal ponto nos deleitamos, por um como que envenenado prazer, seja em procurar descobrir, seja em divulgar as faltas alheias! Nem pensemos ser uma desculpa procedente, se muitas vezes não estamos a mentir. Ora, Aquele que proíbe que seja deturpado pela mentira o nome de um irmão, quer também que se conserve ele ilibado, quanto seja exeqüível em consonância com a verdade. Porquanto, se de alguma maneira precavenha ele apenas contra a mentira, com isso mesmo, entretanto, acena que ele lhe é objeto de atenção. Com efeito, isto deve nos bastar para que se preserve íntegra ao próximo a reputação: que merece ela consideração da parte de Deus. Isso posto, sem a menor dúvida aqui se condena a maledicência.Todavia, por maledicência entendemos não a censura que se faz no empenho de punir faltas; não a acusação ou denúncia judicial, mediante a qual se busca remédio ao mal; não a repreensão pública, que visa a incutir terror a outros pecadores; não a informação em relação àqueles de cuja segurança é de interesse que sejam avisados, para que não incorram em perigo pela falta de conhecimento; ao contrário, é a odiosa incriminação que nasce da maldade e da incontinência de difamar. Porque também até este ponto se estende este mandamento: que não afetemos falsa urbanidade e embebida de amargos sarcasmos, mediante os quais, sob a aparência do chiste, com mordacidade se trazem à baila os defeitos dos outros, como costumam fazer alguns que procuram granjear o louvor de seus chistes com a vergonha, e até mesmo o pranto de outros, quando, por vezes, não levemente, infamam os irmãos através de petulância dessa espécie. Ora, se volvermos os olhos para o Legislador, que não tem menos domínio sobre os ouvidos e o coração do que sobre a língua, compreenderemos, sem lugar a dúvidas, que neste mandamento se proíbe não menos ouvir e crer com chistes e acusações, do que proferi-las e ser seus auto res. Pois é ridículo se alguém pensa que Deus abomina a doença da maledicência na língua e não desaprova a doença da malignidade na mente. Portanto, se há em nós o verdadeiro temor e amor de Deus, diligenciemos, até onde for viável e conveniente, e quanto o admite a caridade, para que não ofereçamos, seja a língua, sejam os ouvidos, a expressões maledicentes e sarcásticas, e não abandonemos, sem razão, a mente a sinuosas suspeitas; pelo contrário, fiéis intérpretes das palavras e atos de todos, conservemos-lhes sinceramente ilibada a honorabilidade, tanto no juízo, quanto nos ouvidos, quanto na língua.

João Calvino