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domingo, 5 de agosto de 2018

A SUPERIORIDADE REVELACIONAL DA DISPENSAÇÃO DO EVANGELHO

EMBORA FOSSE CONHECIDO AOS JUDEUS SOB A LEI, CRISTO, CONTUDO, SE EXIBIU PLENAMENTE NO EVANGELHO


Uma vez que não foi em vão que Deus quis desde outrora atestar-se serPai através de expiações e sacrifícios, não foi em vão que consagrou para si um povo eleito; desde então foi ele indubitavelmente conhecido na mesma imagem em que agora nos aparece em pleno fulgor. Por isso, Malaquias, após haver prescrito aos judeus que dessem atenção à lei de Moisés, e lhe persistissem no zelo (porque depois de sua morte haveria de ocorrer certa descontinuidade do ofício profético), logo em seguida anuncia que haveria de nascer o Sol da Justiça [Ml 4.2]. Com essas palavras ensina que a lei serve para manter os piedosos na expectação do Cristo que haveria de vir, e que, entretanto, muito mais de luz se deveria esperar com sua vinda. Por esta razão, Pedro diz que os profetas investigaram e diligentemente indagaram acerca da salvação, que agora se manifesta através do evangelho, e que lhes foi revelado que não para si próprios ou para seu tempo, mas para nós ministravam estas coisas que mediante o evangelho são anunciadas [1Pe 1.10-12]. Não que o ensino destes tenha sido inútil ao povo antigo ou que nada lhes foi também aproveitado, mas somente que não chegaram a possuir o tesouro que Deus nos transmitiu pela mão deles. Ora, hoje se nos põe diante dos olhos, de maneira familiar, a graça acerca da qual testificaram. E, enquanto a degustaram apenas superficialmente, ela nos é oferecida mais copiosamente em sua concretização. Por isso Cristo, que declara ter testemunho da parte de Moisés [Jo 5.46], no entanto enaltece a medida de graça em que excedemos aos judeus. Pois, falando aos discípulos, diz: “Bem-aventurados os olhos que vêem o que vós estais a ver, e bemaventurados os ouvidos que ouvem o que vós estais a ouvir. Ora, muitos reis e profetas desejaram isto, e não o conseguiram” [Mt 13.16, 17; Lc 10.23, 24]. Esta não é uma simples recomendação da revelação do evangelho, ou, seja, que Deus nos preferiu aos santos patriarcas que exceleram em rara piedade. A esta conclusão de modo algum se contrapõe outra passagem, onde se diz ter Abraão visto o dia de Cristo e ter exultado com júbilo [Jo 8.56]. Porquanto, ainda que foi mais obscura a visão de coisa assaz remota, contudo nada lhe faltou à certeza de segura esperança, donde aquela alegria que acompanhou ao santo patriarca até sua morte. Nem da comunhão de entendimento e luz que refulge na pessoa de Cristo exclui aos piedosos que morreram antes desta declaração de João Batista: “Ninguém jamais viu a Deus; o Unigênito que está no seio do Pai no-lo deu a conhecer” [Jo 1.18]. Ao contrário, comparando-lhes a sorte com a nossa, ensina nos serem manifestos os mistérios que, debaixo de sombras, obscuramente, apenas vislumbraram, como claramente explica o autor da Epístola aos Hebreus [1.1, 2]: que em muitas ocasiões e de muitas maneiras Deus falara outrora pelos profetas; agora, porém, por seu dileto Filho. Portanto, ainda que esse Unigênito, que hoje nos é o esplendor da glória e a expressa representação da substância de Deus, o Pai [Hb 1.3], outrora se fez conhecido aos judeus, como, em outro lugar, citamos de Paulo que foi ele o condutor da libertação antiga, no entanto é verdadeiro o que ensina em outra passagem [2Co 4.6] o mesmo Paulo: Deus, que ordenou que das trevas resplandeça a luz, refulgiu agora em nossos corações para iluminar o conhecimento da glória de Deus na face de Jesus Cristo; porquanto, quando apareceu nesta sua imagem, de certo modo se fez visível, enquanto, anteriormente, sua expressão era obscura e imprecisa. Portanto, mais ignóbil e mais abominável é a ingratidão e depravação daqueles que aqui se fazem cegos à luz do meio-dia! E por isso Paulo diz que suas mentes foram entenebrecidas por Satanás, para que não vissem a glória de Cristo a resplender no evangelho, sem a interposição de nenhum véu [2Co 3.14, 15].

João Calvino