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domingo, 5 de agosto de 2018

AMAR O PRÓXIMO É RECONHECIDAMENTE UM MANDAMENTO, NÃO UM CONSELHO EVANGÉLICO ALEATÓRIO


Pergunto, pois, estas afirmações significam que ousaram zombar com sua insípida glosagem: “Amai vosso inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem, bendizei aos que vos maldizem, para que sejais filhos de vosso Pai que está nos céus” [Mt 5.44, 45; Lc 6.27, 28]? Quem aqui não concluirá com Crisóstomo191 que, de uma causa tão necessária, se evidencia claramente que não são exortações, mas preceituações? Que mais nos resta, quando somos excluídos do número dos filhos de Deus? Mas, segundo eles, somente os monges serão os filhos do Pai celeste, somente eles ousarão invocar a Deus como Pai. Nesse ínterim, que será da Igreja? Pelo mesmo raciocínio, deverá ser relegada aos gentios e publi canos. Pois Cristodiz: “Se sois benévolos para com vossos amigos, que recompensa daí esperais? Porventura os gentios e os publicanos não fazem o mesmo?” [Mt 5.46, 47]. Com efeito, bem nos sucederá se nos deixarem o título de cristãos e nos for subtraída a herança do reino celeste! Não menos firme é o argumento de Agostinho: “Quando o Senhor proíbe cometer adultério”, diz ele, “veda tocar a mulher de um inimigo, não menos que a de um amigo; quando proíbe o furto, absolutamente nada permite furtar, quer de um amigo, quer de um inimigo.” Mas, estes dois mandamentos, Não furtar e Não adulterar, Paulo os aplica à norma do amor, e até ensina que são incluídos neste preceito: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” [Rm 13.9]. Portanto, sobreleva-se que, ou Paulo foi um falso intérprete da lei, ou daqui se conclui necessariamente, como de preceito, que também os inimigos devem ser amados da mesma forma que os amigos. Portanto, revelam-se ser, na verdade, filhos de Satanás aqueles que tão desbragadamente lançam de si o jugo comum dos filhos de Deus. Mas, podes até ficar na dúvida se porventura foi dada ampla vazão a este dogma, dir-se-á, mais por nesciedade ou mais por despudoramento. Ora, ninguém dentre os antigos há que não pronuncie, como se a respeito de coisa certa, que esses são genuínos mandamentos. De seu seguro pronunciamento transparece que a este respeito, na verdade, nenhuma dúvida houve no tempo de Gregório o Grande, porque, além de toda dúvida, os tem por preceitos.  E quão disparatadamente argumentam!Seria, insistem eles, um fardo excessivamente pesado para os cristãos. Como se de fato se possa cogitar o que quer que seja mais pesado do que amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todas as forças! Diante desta lei, nada se deva ter como não fácil, seja amar o inimigo, seja alijar do coração todo desejo de vingança. Sem dúvida que à nossa insuficiência são árduas e difíceis todas as injunções, até mesmo a mais insignificante minúcia da lei. É o Senhor, Aquele em quem praticamos a virtude: dê ele o que ordena e ordene o que queira. Ser cristão debaixo da lei da graça não é vaguear desenfreadamente sem lei, mas estar enxertado em Cristo, por cuja graça está liberado da maldição da lei e por cujo Espírito tem a lei gravada no coração. Paulo chamou a esta graça, não propriamente lei, se referindo à lei de Deus, a que a contrapunha à guisa de contraste; estes, com o título lei, estão a filosofar acerca de nada.

João Calvino