Pergunto, pois, estas
afirmações significam que ousaram zombar com sua insípida glosagem: “Amai vosso
inimigos, fazei o bem aos que vos odeiam, orai pelos que vos perseguem,
bendizei aos que vos maldizem, para que sejais filhos de vosso Pai que está nos
céus” [Mt 5.44, 45; Lc 6.27, 28]? Quem aqui não concluirá com Crisóstomo191
que, de uma causa tão necessária, se evidencia claramente que não são
exortações, mas preceituações? Que mais nos resta, quando somos excluídos do
número dos filhos de Deus? Mas, segundo eles, somente os monges serão os filhos
do Pai celeste, somente eles ousarão invocar a Deus como Pai. Nesse ínterim,
que será da Igreja? Pelo mesmo raciocínio, deverá ser relegada aos gentios e
publi canos. Pois Cristodiz: “Se sois benévolos para com vossos amigos, que
recompensa daí esperais? Porventura os gentios e os publicanos não fazem o
mesmo?” [Mt 5.46, 47]. Com efeito, bem nos sucederá se nos deixarem o título de
cristãos e nos for subtraída a herança do reino celeste! Não menos firme é o
argumento de Agostinho: “Quando o Senhor proíbe cometer adultério”, diz ele,
“veda tocar a mulher de um inimigo, não menos que a de um amigo; quando proíbe
o furto, absolutamente nada permite furtar, quer de um amigo, quer de um
inimigo.” Mas, estes dois mandamentos, Não furtar e Não adulterar, Paulo os
aplica à norma do amor, e até ensina que são incluídos neste preceito: “Amarás
a teu próximo como a ti mesmo” [Rm 13.9]. Portanto, sobreleva-se que, ou Paulo
foi um falso intérprete da lei, ou daqui se conclui necessariamente, como de
preceito, que também os inimigos devem ser amados da mesma forma que os amigos.
Portanto, revelam-se ser, na verdade, filhos de Satanás aqueles que tão
desbragadamente lançam de si o jugo comum dos filhos de Deus. Mas, podes até
ficar na dúvida se porventura foi dada ampla vazão a este dogma, dir-se-á, mais
por nesciedade ou mais por despudoramento. Ora, ninguém dentre os antigos há
que não pronuncie, como se a respeito de coisa certa, que esses são genuínos
mandamentos. De seu seguro pronunciamento transparece que a este respeito, na
verdade, nenhuma dúvida houve no tempo de Gregório o Grande, porque, além de
toda dúvida, os tem por preceitos. E
quão disparatadamente argumentam!Seria, insistem eles, um fardo excessivamente
pesado para os cristãos. Como se de fato se possa cogitar o que quer que seja
mais pesado do que amar a Deus de todo o coração, de toda a alma, de todas as
forças! Diante desta lei, nada se deva ter como não fácil, seja amar o inimigo,
seja alijar do coração todo desejo de vingança. Sem dúvida que à nossa
insuficiência são árduas e difíceis todas as injunções, até mesmo a mais
insignificante minúcia da lei. É o Senhor, Aquele em quem praticamos a virtude:
dê ele o que ordena e ordene o que queira. Ser cristão debaixo da lei da graça
não é vaguear desenfreadamente sem lei, mas estar enxertado em Cristo, por cuja
graça está liberado da maldição da lei e por cujo Espírito tem a lei gravada no
coração. Paulo chamou a esta graça, não propriamente lei, se referindo à lei de
Deus, a que a contrapunha à guisa de contraste; estes, com o título lei, estão
a filosofar acerca de nada.
João Calvino