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domingo, 5 de agosto de 2018

O ABSURDO ESCOLÁSTICO DA REDUÇÃO DESTE PRECEITO A MERO CONSELHO EVANGÉLICO


Em razão disso, ou por ignorância ou por impiedade assaz pesti1enta,foi que os escolásticos fizeram dos preceitos sobre não se buscar vingança e sobre amar os inimigos, que não só foram ensinados outrora a todos os judeus, mas também estavam sendo ensinados a todos os cristãos em comum, fosse livre obedecer ou não obedecer a meros conselhos. Mas, relegaram aos monges a obediência necessária a eles, que fossem até mais justos que os simples cristãos neste ponto: que se obrigavam a observar voluntariamente os chamados por eles conselhos evangélicos. E assinalam a razão por que não os recebem como leis: parecem excessivamente pesados e severos, especialmente aos cristãos que estão debaixo da lei da graça. Ousam, desse modo, abolir a eterna lei de Deus quanto ao dever de se amar ao próximo? Aparece, porventura, tal distinção em alguma página da lei? E, por outro lado, porventura não ocorrem nela, a cada passo, mandamentos que mui rigidamente de nós exijem o amor para com os inimigos? Ora, que isto significa: que se nos ordena alimentar o inimigo faminto [Pv 25.21], reconduzir ao caminho seus bois e jumentos desgarrados ou levantá-los quando sucumbem à carga [Ex 23.3, 4]? A seu favor faremos um benefício a seus animais, todavia nenhuma benevolência para com ele próprio? Ora, porventura não é eterna a palavra do Senhor: “Minha é a vingança” e “Eu retribuirei” [Dt 32.35; Hb 10.30], que, também mais explicitamente, se tem em outro lugar [Lv 19.18]: “Não buscarás vingança, nem te lembrarás da injúria de teus concidadãos”? Portanto, ou invalidem da lei estas passagens, ou reconheçam que o Senhor foi um Legislador, e não inventem que ele foi apenas um Conselheiro.

João Calvino