Em razão disso, ou
por ignorância ou por impiedade assaz pesti1enta,foi que os escolásticos
fizeram dos preceitos sobre não se buscar vingança e sobre amar os inimigos,
que não só foram ensinados outrora a todos os judeus, mas também estavam sendo
ensinados a todos os cristãos em comum, fosse livre obedecer ou não obedecer a
meros conselhos. Mas, relegaram aos monges a obediência necessária a eles, que
fossem até mais justos que os simples cristãos neste ponto: que se obrigavam a
observar voluntariamente os chamados por eles conselhos evangélicos. E
assinalam a razão por que não os recebem como leis: parecem excessivamente
pesados e severos, especialmente aos cristãos que estão debaixo da lei da
graça. Ousam, desse modo, abolir a eterna lei de Deus quanto ao dever de se
amar ao próximo? Aparece, porventura, tal distinção em alguma página da lei? E,
por outro lado, porventura não ocorrem nela, a cada passo, mandamentos que mui
rigidamente de nós exijem o amor para com os inimigos? Ora, que isto significa:
que se nos ordena alimentar o inimigo faminto [Pv 25.21], reconduzir ao caminho
seus bois e jumentos desgarrados ou levantá-los quando sucumbem à carga [Ex
23.3, 4]? A seu favor faremos um benefício a seus animais, todavia nenhuma
benevolência para com ele próprio? Ora, porventura não é eterna a palavra do
Senhor: “Minha é a vingança” e “Eu retribuirei” [Dt 32.35; Hb 10.30], que,
também mais explicitamente, se tem em outro lugar [Lv 19.18]: “Não buscarás
vingança, nem te lembrarás da injúria de teus concidadãos”? Portanto, ou
invalidem da lei estas passagens, ou reconheçam que o Senhor foi um Legislador,
e não inventem que ele foi apenas um Conselheiro.
João Calvino