Total de visualizações de página

domingo, 5 de agosto de 2018

O ESPÍRITO E A RELEVÂNCIA DO DÉCIMO MANDAMENTO


Na verdade, não sem causa, Deus exige tão grande retidão. Ora, quem há que negue ser justo que todos os poderes da alma sejam postos a serviço da caridade? Se, porém, alguma alma se desvia do escopo da caridade, quem negará que esteja enferma? Ora, donde de fato acontece que te subam à mente desejos danosos em relação a teu irmão, senão porque, em negligenciando-o, só te preocupas contido mesmo? Se, pois, toda tua mente estivesse imbuída da caridade, nenhuma partícula lhe estaria aberta a tais imaginações. Portanto, até onde agasalha ela a cobiça, até esse ponto ela tem de estar vazia de caridade. Entretanto, alguém objetará não ser coerente que fantasias que voluteiam ao acaso na mente, e que por fim se desvanecem, sejam condenadas como concupiscências cuja sede está no coração. Respondo que aqui é questão de fantasias dessa espécie que, enquanto se exibem diante das mentes, ao mesmo tempo mordem e ferem o coração com a cobiça, uma vez que nunca vem à mente optar por algo, que o coração não palpite excitado. Portanto, Deus ordena um maravilhoso ardor de afeição, que não quer que seja obstruído sequer pelo menor assomo de cobiça. Requer um espírito mirificamente disposto, que não tolera ser estugado por sequer leves aguilhões contra a lei do amor. Para que não a julgues destituídade ponderável apoio, a esta maneira de entender Agostinho abriu-me o caminho pela primeira vez. Mas, ainda que a intenção do Senhor fosse proibir todo e qualquer desejo depravado, contudo propôs, como exemplo, aquelas manifestações que mais freqüentemente nos cativam com a falsa imagem do prazer, para que não deixasse absolutamente nada ao desejo, quando o retrai dessas coisas nas quais acima de tudo se desborda e esbalda. Eis a segunda tábua da lei, na qual somos suficientemente advertidos sobre o que, por amor a Deus, de cuja consideração depende toda a norma da caridade, devemos aos homens. Portanto, terás em vão inculcado todos os deveres ensinados nesta tábua, a não ser que teu ensino se apóie no temor e reverência de Deus, como seu fundamento. Aqueles que buscam dois mandamentos na proibição da cobiça, ainda que eu me cale, o sábio leitor julgará estarem eles, em virtude de perverso seccionamento, a fracionar o que era apenas um. Nem se contrapõe a esta concepção unificada o fato de que a expressão Não cobiçarás se repete uma segunda vez, porquanto onde o mandamento referiu o termo casa, enumera-lhe a seguir as partes, começando pela esposa. Donde se evidencia claramente que se deve ler o todo como uma unidade entrelaçada, o que fazem, corretamente, os hebreus, e que Deus preceitua, em suma, que permaneça incólume e intocado, não só de dano ou do desejo de defraudar, mas ainda de sequer a mínima cobiça que solicite os ânimos, o que possui cada um.

João Calvino