Na verdade, não sem
causa, Deus exige tão grande retidão. Ora, quem há que negue ser justo que
todos os poderes da alma sejam postos a serviço da caridade? Se, porém, alguma
alma se desvia do escopo da caridade, quem negará que esteja enferma? Ora,
donde de fato acontece que te subam à mente desejos danosos em relação a teu
irmão, senão porque, em negligenciando-o, só te preocupas contido mesmo? Se,
pois, toda tua mente estivesse imbuída da caridade, nenhuma partícula lhe
estaria aberta a tais imaginações. Portanto, até onde agasalha ela a cobiça,
até esse ponto ela tem de estar vazia de caridade. Entretanto, alguém objetará
não ser coerente que fantasias que voluteiam ao acaso na mente, e que por fim
se desvanecem, sejam condenadas como concupiscências cuja sede está no coração.
Respondo que aqui é questão de fantasias dessa espécie que, enquanto se exibem
diante das mentes, ao mesmo tempo mordem e ferem o coração com a cobiça, uma
vez que nunca vem à mente optar por algo, que o coração não palpite excitado.
Portanto, Deus ordena um maravilhoso ardor de afeição, que não quer que seja
obstruído sequer pelo menor assomo de cobiça. Requer um espírito mirificamente
disposto, que não tolera ser estugado por sequer leves aguilhões contra a lei
do amor. Para que não a julgues destituídade ponderável apoio, a esta maneira
de entender Agostinho abriu-me o caminho pela primeira vez. Mas, ainda que a
intenção do Senhor fosse proibir todo e qualquer desejo depravado, contudo
propôs, como exemplo, aquelas manifestações que mais freqüentemente nos cativam
com a falsa imagem do prazer, para que não deixasse absolutamente nada ao
desejo, quando o retrai dessas coisas nas quais acima de tudo se desborda e
esbalda. Eis a segunda tábua da lei, na qual somos suficientemente advertidos
sobre o que, por amor a Deus, de cuja consideração depende toda a norma da
caridade, devemos aos homens. Portanto, terás em vão inculcado todos os deveres
ensinados nesta tábua, a não ser que teu ensino se apóie no temor e reverência
de Deus, como seu fundamento. Aqueles que buscam dois mandamentos na proibição
da cobiça, ainda que eu me cale, o sábio leitor julgará estarem eles, em
virtude de perverso seccionamento, a fracionar o que era apenas um. Nem se
contrapõe a esta concepção unificada o fato de que a expressão Não cobiçarás se
repete uma segunda vez, porquanto onde o mandamento referiu o termo casa,
enumera-lhe a seguir as partes, começando pela esposa. Donde se evidencia
claramente que se deve ler o todo como uma unidade entrelaçada, o que fazem, corretamente, os hebreus, e
que Deus preceitua, em suma, que permaneça incólume e intocado, não só de dano
ou do desejo de defraudar, mas ainda de sequer a mínima cobiça que solicite os
ânimos, o que possui cada um.
João Calvino