Agora não será
difícil ver qual é a intenção e o fim de toda a lei; a saber, uma justiça
perfeita, para que a vida do homem esteja inteiramente conformada à natureza
divina.183 Pois aqui Deus pintou de tal forma sua própria naturezaque, se
alguém representa em atos tudo o que aí se prescreve, há de expressar, de certo
modo, na vida a imagem de Deus. Razão pela qual, como aos israelitas quisesse
trazer à lembrança a essência, dizia Moisés: “E agora, ó Israel, o que o Senhor
teu Deus pede de ti, senão que temas ao Senhor e andes em seus caminhos; que o
ames e o sirvas de todo o coração, e de toda a alma, e guardes seus
mandamentos?” [Dt 10.12, 13]. Nem cessava de reiterar-lhes as mesmas coisas
sempre que tinha de lhes apontar o escopo da lei. A isto, portanto, contempla o
ensino da lei: que o homem se una a seu Deus pela santidade de vida, e, como
fala Moisés, em outro lugar [Dt 11.22; 30.20], se lhe apegue. Com efeito, a
perfeição desta santidade situa-se nos dois pontos já referidos: que amemos ao
Senhor, nosso Deus, de todo o coração, de toda a alma, de todas as forças, e ao
próximo como a nós mesmos [Lv 19.18; Dt 6.5; 11.13; Mt 22.37-39]. E o primeiro
é, de fato, que o amor de Deus nos encha toda a alma. Além do mais, deste amor
fluirá, naturalmente, o amor do próximo, o que mostra o Apóstolo quando escreve
que o fim do mandamento é a caridade de uma consciência pura e de uma fé não
fingida [1Tm 1.5]. Não vês como a boa consciência e a fé, que em outros termos
quer dizer a verdadeira piedade e o temor de Deus, são postas na cabeça, e
então segue a caridade? Portanto, alguém se engana se crê que na lei se ensinam
apenas certos rudimentos e princípios elementares da justiça, com os quais os
homens são iniciados à sua aprendizagem, todavia não são conduzidos ao reto
alvo das boas obras, quando para a perfeição suprema nada possas desejar além
daquela formulação de Moisés e desta de Paulo. Pois, pergunto, até onde quererá
avançar quem não quiser contentar com esta instrução, pela qual se adestra o
homem ao temor de Deus, ao culto espiritual, à obediência dos mandamentos, a
seguir a retitude do caminho do Senhor, enfim, à pureza de consciência, à fé
sincera e ao amor? Donde se confirma essa interpretação da lei, que em seus
próprios preceitos procura e acha todos os deveres da piedade e do amor. Pois
aqueles que se aferram a apenas elementos mirrados e jejunos, como se a lei
ensinasse a vontade de Deus pela metade, conforme o Apóstolo testifica, de
maneira nenhuma alcançam sua finalidade.
João Calvino