Dirás, pois, que mais
importa à essência da justiça viver irrepreensivelmente com os homens do que
honrar a Deus pela piedade? De maneira alguma. Porque, não obstante, alguém não
conserva facilmente a caridade através de tudo, a não ser que tema deveras a
Deus, disto também se lhe reconhece comprovação da piedade.
Além disso, como Deus
não pode receber de nós benefício algum – como o testifica o Profeta [Sl 16.2]
–, não nos pede boas obras em relação a ele, mas que nos exercitemos nelas em
relação a nosso próximo. Portanto, não sem causa, o Apóstolo põe na caridade
toda a perfeição dos santos [Ef 3.17; Cl 3.14]. Nem a chama absurdamente, em
outro lugar [Rm 13.8], de “cumprimento da lei”, aduzindo que “cumpriu
integralmente a lei aquele que ama ao próximo”. Igualmente: “Toda a lei está
compreendida numa só expressão: Ama ao próximo como a ti mesmo” [Gl 5.14]. Pois
ele não está a ensinar outra coisa senão o próprio Cristo, quando diz: “Tudo
quanto quereis que os homens vos façam, isto mesmo fazei-lhes, porquanto isto é
a lei e os profetas” [Mt 7.12]. Certo é que a fé ocupa o primeiro lugar na Lei
e nos Profetas, e tudo quanto diz respeito ao culto legítimo de Deus; que o
amor é relegado a um lugar inferior. Mas, o Senhor entende que na lei nos é
prescrita a observância da justiça e da eqüidade entre os homens, para que sejamos
exercitados a testificar-lhe piedoso temor, se porventura algum temor haja em
nós.
João Calvino