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domingo, 5 de agosto de 2018

A ESSÊNCIA DA LEI É FÉ PARA COM DEUS E AMOR PARA COM O PRÓXIMO


Dirás, pois, que mais importa à essência da justiça viver irrepreensivelmente com os homens do que honrar a Deus pela piedade? De maneira alguma. Porque, não obstante, alguém não conserva facilmente a caridade através de tudo, a não ser que tema deveras a Deus, disto também se lhe reconhece comprovação da piedade.
Além disso, como Deus não pode receber de nós benefício algum – como o testifica o Profeta [Sl 16.2] –, não nos pede boas obras em relação a ele, mas que nos exercitemos nelas em relação a nosso próximo. Portanto, não sem causa, o Apóstolo põe na caridade toda a perfeição dos santos [Ef 3.17; Cl 3.14]. Nem a chama absurdamente, em outro lugar [Rm 13.8], de “cumprimento da lei”, aduzindo que “cumpriu integralmente a lei aquele que ama ao próximo”. Igualmente: “Toda a lei está compreendida numa só expressão: Ama ao próximo como a ti mesmo” [Gl 5.14]. Pois ele não está a ensinar outra coisa senão o próprio Cristo, quando diz: “Tudo quanto quereis que os homens vos façam, isto mesmo fazei-lhes, porquanto isto é a lei e os profetas” [Mt 7.12]. Certo é que a fé ocupa o primeiro lugar na Lei e nos Profetas, e tudo quanto diz respeito ao culto legítimo de Deus; que o amor é relegado a um lugar inferior. Mas, o Senhor entende que na lei nos é prescrita a observância da justiça e da eqüidade entre os homens, para que sejamos exercitados a testificar-lhe piedoso temor, se porventura algum temor haja em nós.

João Calvino