Com efeito, porque,
ao referir-se à síntese da lei, Cristo e os apóstolos por vezes omitem a
primeira tábua, muitos erram nesta matéria, quando querem aplicar as palavras a
ambas as tábuas. Em Mateus [23.23], Cristo chama de coisas principais da lei à
misericórdia, ao juízo e à fidedignidade. Quanto a mim, não nutro dúvida de
que, com o termo fidedignidade, designa ele a lisura no trato com os homens.
Contudo, para que a referência se estenda a toda a lei, alguns o tomam como
piedade para com Deus, o que na verdade fazem em vão. Pois Cristo está falando
acerca dessas obras com as quais o homem deve comprovar ser justo. Se tivermos
em mira esta consideração, deixaremos também de admirar-nos por que, em outro
lugar [Mt 19.18, 19], ao moço que perguntava quais são os mandamentos por cuja
observância ingressamos na vida, ele responde apenas com estes: Não matarás,
não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a pai
e mãe, ama a teu próximo como a ti mesmo. Visto que, de fato, a obediência da
primeira tábua se situava, dir-se-ia inteiramente, ou no afeto do coração, ou
nos ritos cerimoniais. O afeto do coração não se punha à mostra; os hipócritas
se entregavam assiduamente às cerimônias. Mas, as obras da caridade são tais
que, através delas, atestamos a genuína retidão. Isto, com efeito, ocorre com
tanta freqüência nos profetas, que deve ser familiar ao leitor medianamente
versado neles. Ora, quase sempre que os profetas exortam ao arrependimento,
deixada de parte a primeira tábua, insistem na fidedignidade, no juízo, na
misericórdia e na eqüidade. Com isso não estão passando por alto o temor de
Deus; pelo contrário, lhe requerem séria comprovação através de evidências como
essas. Isto, certamente, é notório: quando discorrem acerca da observância da
lei, insistem geralmente na segunda tábua, porquanto aí se visualiza, no mais
elevado grau, o zelo da retidão e da integridade. Nem se faz necessário
enumerar passagens, pois, de si mesmo, cada um pode verificar facilmente o que
estou afirmando.
João Calvino