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domingo, 5 de agosto de 2018

A LEI REFERIDA NA ESCRITURA, MAIS AMIÚDE EM TERMOS DA SEGUNDA TÁBUA, EXPRESSA MAIS EXPLICITAMENTE A RETIDÃO DE VIDA QUE SE REQUER DO HOMEM


Com efeito, porque, ao referir-se à síntese da lei, Cristo e os apóstolos por vezes omitem a primeira tábua, muitos erram nesta matéria, quando querem aplicar as palavras a ambas as tábuas. Em Mateus [23.23], Cristo chama de coisas principais da lei à misericórdia, ao juízo e à fidedignidade. Quanto a mim, não nutro dúvida de que, com o termo fidedignidade, designa ele a lisura no trato com os homens. Contudo, para que a referência se estenda a toda a lei, alguns o tomam como piedade para com Deus, o que na verdade fazem em vão. Pois Cristo está falando acerca dessas obras com as quais o homem deve comprovar ser justo. Se tivermos em mira esta consideração, deixaremos também de admirar-nos por que, em outro lugar [Mt 19.18, 19], ao moço que perguntava quais são os mandamentos por cuja observância ingressamos na vida, ele responde apenas com estes: Não matarás, não cometerás adultério, não furtarás, não dirás falso testemunho, honra a pai e mãe, ama a teu próximo como a ti mesmo. Visto que, de fato, a obediência da primeira tábua se situava, dir-se-ia inteiramente, ou no afeto do coração, ou nos ritos cerimoniais. O afeto do coração não se punha à mostra; os hipócritas se entregavam assiduamente às cerimônias. Mas, as obras da caridade são tais que, através delas, atestamos a genuína retidão. Isto, com efeito, ocorre com tanta freqüência nos profetas, que deve ser familiar ao leitor medianamente versado neles. Ora, quase sempre que os profetas exortam ao arrependimento, deixada de parte a primeira tábua, insistem na fidedignidade, no juízo, na misericórdia e na eqüidade. Com isso não estão passando por alto o temor de Deus; pelo contrário, lhe requerem séria comprovação através de evidências como essas. Isto, certamente, é notório: quando discorrem acerca da observância da lei, insistem geralmente na segunda tábua, porquanto aí se visualiza, no mais elevado grau, o zelo da retidão e da integridade. Nem se faz necessário enumerar passagens, pois, de si mesmo, cada um pode verificar facilmente o que estou afirmando.

João Calvino