Total de visualizações de página

domingo, 5 de agosto de 2018

AMOR AO PRÓXIMO É A NORMA DO VIVER


Estejamos, pois, seguros de que nossa vida esteja plenamente conformada à vontade de Deus e às administrações da lei, quando resulta de ser ela proveitosa, de todas as formas possíveis, a nosso próximo. Com efeito, em toda a lei não se lê uma só sílaba que dite norma ao homem acerca daquelas coisas que tenha de fazer ou deixar de fazer para proveito de sua carne. E, obviamente, uma vez que os homens nasceram assim, os quais, inclinados mais do que o justo, são todos levados ao amor de si mesmos e, por mais que se afastem da verdade, sempre o retêm, nenhuma lei se fez necessária que inflamasse ainda mais esse amor, já de si imoderado. Pelo que é plenamente evidente que a observância dos mandamentos não é o amor por nós mesmos, mas o amor por Deus e pelo próximo, e que vive de maneira a mais nobre e a mais santaaquele que vive e luta por si o mínimo possível, e que ninguém, de fato, vive mais indignamente, nem mais iniquamente, que aquele que vive e luta apenas por si e cogita e busca somente o que lhe é do interesse. E, além disso, para que mais expressasse o Senhor com quão grande propensão nos importa aferrar-nos ao amor do próximo, reportou-se ele ao amor por nós mesmos como a seu parâmetro, visto que não tinha nenhum afeto mais veemente e mais forte pelo qual expressá-lo. E deve-se, na verdade, ponderar, diligentemente, a força desta expressão. Pois, não está ele a conceder o primeiro lugar philautía(i) – ao amor de si mesmo], o que parvamente sonharam certos sofistas, designando o segundo lugar à caridade; antes, pelo contrário, o afeto do amor que volvemos naturalmente para nós mesmos está ele a transferi-lo para os outros. Donde declara o Apóstolo que “a caridade não busca seus próprios interesses” [1Co 13.5]. Seu argumento deve ser estimado como de menor valor que um fio de cabelo, ou, seja: A coisa regulada é sempre inferior à norma pela qual se regula. Com efeito, o Senhor não promulgou regra em relação ao amor por nós mesmos a que se devesse subordinar a caridade para com os outros. Pelo contrário, mostra que onde, em razão da depravação natural, costumava em nós residir o afeto do amor para conosco próprios, deve-se ele agora estender a outrem, de sorte que estejamos preparados para, com não menor alegria, ardor, solicitude, fazer o bem antes ao próximo que a nós mesmos.

João Calvino