Estejamos, pois,
seguros de que nossa vida esteja plenamente conformada à vontade de Deus e às
administrações da lei, quando resulta de ser ela proveitosa, de todas as formas
possíveis, a nosso próximo. Com efeito, em toda a lei não se lê uma só sílaba
que dite norma ao homem acerca daquelas coisas que tenha de fazer ou deixar de
fazer para proveito de sua carne. E, obviamente, uma vez que os homens nasceram
assim, os quais, inclinados mais do que o justo, são todos levados ao amor de
si mesmos e, por mais que se afastem da verdade, sempre o retêm, nenhuma lei se
fez necessária que inflamasse ainda mais esse amor, já de si imoderado. Pelo
que é plenamente evidente que a observância dos mandamentos não é o amor por
nós mesmos, mas o amor por Deus e pelo próximo, e que vive de maneira a mais
nobre e a mais santaaquele que vive e luta por si o mínimo possível, e que
ninguém, de fato, vive mais indignamente, nem mais iniquamente, que aquele que
vive e luta apenas por si e cogita e busca somente o que lhe é do interesse. E,
além disso, para que mais expressasse o Senhor com quão grande propensão nos
importa aferrar-nos ao amor do próximo, reportou-se ele ao amor por nós mesmos
como a seu parâmetro, visto que não tinha nenhum afeto mais veemente e mais
forte pelo qual expressá-lo. E deve-se, na verdade, ponderar, diligentemente, a
força desta expressão. Pois, não está ele a conceder o primeiro lugar philautía(i)
– ao amor de si mesmo], o que parvamente sonharam certos sofistas, designando o
segundo lugar à caridade; antes, pelo contrário, o afeto do amor que volvemos
naturalmente para nós mesmos está ele a transferi-lo para os outros. Donde
declara o Apóstolo que “a caridade não busca seus próprios interesses” [1Co
13.5]. Seu argumento deve ser estimado como de menor valor que um fio de cabelo,
ou, seja: A coisa regulada é sempre inferior à norma pela qual se regula. Com
efeito, o Senhor não promulgou regra em relação ao amor por nós mesmos a que se
devesse subordinar a caridade para com os outros. Pelo contrário, mostra que
onde, em razão da depravação natural, costumava em nós residir o afeto do amor
para conosco próprios, deve-se ele agora estender a outrem, de sorte que
estejamos preparados para, com não menor alegria, ardor, solicitude, fazer o
bem antes ao próximo que a nós mesmos.
João Calvino