Portanto, em
considerando este primeiro ponto, uma vez que diz ele respeito à presente
questão de maneira especial e a seu respeito suscita-se muita controvérsia,
lhes daremos atenção mais diligente. E, ao mesmo tempo, se algo falta para
explicar claramente os outros dois, o indicaremos em termos breves, ou o remitiremos
a seu lugar apropriado. Com efeito, quanto a todos estes três pontos, o
Apóstolo remove toda dúvida quando diz que, através dos profetas, Deus o Pai
prometera muito antes nas Santas Escrituras o evangelho que, segundo o tempo determinado,
promulgou acerca de seu
Filho [Rm 1.2, 3]. De igual modo, da lei e dos profetas tem testemunho a
justiça da fé, que é ensinada pelo próprio evangelho [Rm 3.21]. Porque, de fato
o evangelho não detém os corações humanosno encantamento da presente vida, ao
contrário os arrebata à esperança da imortalidade; não os prende às delícias
terrenas, mas, proclamando a esperança posta no céu, para ali os transporta.
Pois assim o define o Apóstolo, em outro lugar: “Depois que crestes no
evangelho, fostes selados com o Santo Espírito da promessa, que é o penhor de
nossa herança para a redenção da posse adquirida” [Ef 1.13]. Igualmente: “Temos
ouvido de vossa fé em Cristo Jesus e de vossa caridade para com os santos, em
razão da esperança depositada para vós nos céus, acerca da qual ouvistes
mediante a palavra veraz do evangelho” [Cl 1.4, 5]. Ainda: “Ele nos chamou
mediante o evangelho à participação da glória de nosso Senhor Jesus Cristo”
[2Ts 2.14]. Donde é o evangelho designado de “a palavra de salvação” [At
13.26], e “o poder de Deus para salvar os fiéis” [Rm 1.16], e “o reino dos
céus” [Mt 3.2]. Ora, se a doutrina do evangelho é espiritual e abre acesso à
posse da vida incorruptível, não pensemos que aqueles a quem fora ele prometido
e anunciado, tenham descartado e negligenciado o cuidado da alma, e tenham se
embotado na busca dos prazeres do corpo, como se fossem animais brutos. Nem
aqui sofisme alguém que as promessas que foram consignadas na lei e nos
profetas acerca do evangelho se destinaram ao novo povo. Ora, pouco depois que
postulou isto acerca do evangelho, que foi prometido na lei, acrescenta o
Apóstolo que “tudo quanto a lei contém, sem dúvida aplica-se propriamente
àqueles que estiveram debaixo da lei” [Rm 3.19]. Isto disse ele, na verdade, em
um arrazoado diferente, reconheço-o. Entretanto, não tão esquecido era que, em
dizendo que, de fato, aos judeus se aplicavam todas as coisas que a lei ensina,
não lhe viesse à mente o que havia afirmado poucos versículos antes a respeito
do evangelho prometido na lei. Portanto, o Apóstolo demonstra, com muita
clareza, que o Antigo Testamento contemplara primordialmente a vida futura,
quando diz que nele estão contidas as promessas do evangelho.
João Calvino