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segunda-feira, 6 de agosto de 2018

A UNIDADE DOS TESTAMENTOS EM TERMOS DAS PROMESSAS DA VIDA FUTURA


Portanto, em considerando este primeiro ponto, uma vez que diz ele respeito à presente questão de maneira especial e a seu respeito suscita-se muita controvérsia, lhes daremos atenção mais diligente. E, ao mesmo tempo, se algo falta para explicar claramente os outros dois, o indicaremos em termos breves, ou o remitiremos a seu lugar apropriado. Com efeito, quanto a todos estes três pontos, o Apóstolo remove toda dúvida quando diz que, através dos profetas, Deus o Pai prometera muito antes nas Santas Escrituras o evangelho que, segundo o tempo determinado, promulgou acerca de seu Filho [Rm 1.2, 3]. De igual modo, da lei e dos profetas tem testemunho a justiça da fé, que é ensinada pelo próprio evangelho [Rm 3.21]. Porque, de fato o evangelho não detém os corações humanosno encantamento da presente vida, ao contrário os arrebata à esperança da imortalidade; não os prende às delícias terrenas, mas, proclamando a esperança posta no céu, para ali os transporta. Pois assim o define o Apóstolo, em outro lugar: “Depois que crestes no evangelho, fostes selados com o Santo Espírito da promessa, que é o penhor de nossa herança para a redenção da posse adquirida” [Ef 1.13]. Igualmente: “Temos ouvido de vossa fé em Cristo Jesus e de vossa caridade para com os santos, em razão da esperança depositada para vós nos céus, acerca da qual ouvistes mediante a palavra veraz do evangelho” [Cl 1.4, 5]. Ainda: “Ele nos chamou mediante o evangelho à participação da glória de nosso Senhor Jesus Cristo” [2Ts 2.14]. Donde é o evangelho designado de “a palavra de salvação” [At 13.26], e “o poder de Deus para salvar os fiéis” [Rm 1.16], e “o reino dos céus” [Mt 3.2]. Ora, se a doutrina do evangelho é espiritual e abre acesso à posse da vida incorruptível, não pensemos que aqueles a quem fora ele prometido e anunciado, tenham descartado e negligenciado o cuidado da alma, e tenham se embotado na busca dos prazeres do corpo, como se fossem animais brutos. Nem aqui sofisme alguém que as promessas que foram consignadas na lei e nos profetas acerca do evangelho se destinaram ao novo povo. Ora, pouco depois que postulou isto acerca do evangelho, que foi prometido na lei, acrescenta o Apóstolo que “tudo quanto a lei contém, sem dúvida aplica-se propriamente àqueles que estiveram debaixo da lei” [Rm 3.19]. Isto disse ele, na verdade, em um arrazoado diferente, reconheço-o. Entretanto, não tão esquecido era que, em dizendo que, de fato, aos judeus se aplicavam todas as coisas que a lei ensina, não lhe viesse à mente o que havia afirmado poucos versículos antes a respeito do evangelho prometido na lei. Portanto, o Apóstolo demonstra, com muita clareza, que o Antigo Testamento contemplara primordialmente a vida futura, quando diz que nele estão contidas as promessas do evangelho.

João Calvino