Já demonstramos que
Cristo, na parábola do samaritano [Lc 10.29-37], sob o termo próximo inclui
cada indivíduo, até o mais distanciado, não havendo razão para limitarmos o
preceito do amor ao próximo às pessoas mais achegadas a nós. Não estou negando
que quanto mais intimamente ligada nos é uma pessoa, tanto mais especialmente é
nosso dever assisti-la. Pois assim impõe o princípio de humanidade: quanto mais
íntimos são os laços de parentesco ou amizade que ligam as pessoas, tanto mais
devem os homens ajudar-se entre si. E isto com nenhuma ofensa de Deus, por cuja
providência somos, de certo modo, a isto compelidos. Afirmo, porém, que se deve
abraçar com um só afeto de caridade a todo gênero humano, sem qualquer exceção,
porquanto aqui não há nenhuma distinção de bárbaro ou grego, de digno ou
indigno, de amigo ou inimigo, visto que devem ser considerados em Deus, não em
si mesmos, consideração esta da qual, quando nos desviamos, não surpreende que
nos emaranhemos em muitos erros. Conseqüentemente, se apraz manter a verdadeira
linha do amar, devem-se voltar os olhos, em primeiro plano, não para o homem,
cuja visão mais freqüentemente engendraria ódio que amor, mas para Deus, que
manda que o amor que lhe deferimos seja difundido em relação a todos os seres
humanos, de sorte que seja este o perpétuo fundamento: seja quem for o homem,
deve ele, no entanto, ser amado, já que Deus é amado.
João Calvino