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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

DADA A SEVERIDADE DA LEI E A PECAMINOSIDADE HUMANA, É INFRUTÍFERA A PRETENSÃO DAS BOAS OBRAS PARA A JUSTIFICAÇÃO

Além disso, ainda que viesse a acontecer que possuíssemos algumas obras absolutamente puras e perfeitas, no entanto, um só pecado é suficiente para ofuscar e extinguir toda lembrança de justiça anterior, segundo afirma o Profeta [Ez 18.24], com quem também Tiago concorda: “Aquele que transgride”, diz ele, “sequer um ponto, faz-se culpado de todos” [Tg 2.10]. Ora, uma vez que esta vida mortal nunca é pura ou isenta de pecado, tudo quanto existe de justiça que for efetuado por nós, ficaria corrompido, sufocado e arruinado pelos pecados que amiúde surgem; e assim não seria tida em conta à vista de Deus, nem nos seria imputado para justiça. Finalmente, quando se trata da justiça proveniente de obras humanas, deve-se ter em vista não a obra da lei, mas o mandamento. Por isso, caso se busque a justiça da lei, em vão exibimos uma ou outra obra; pelo contrário, é necessária a perpétua obediência à lei. Por isso, só uma vez – como muitos nesciamente pensam – Deus nos imputa para justiça essa remissão de pecados da qual temos falado, de tal maneira que, obtido o perdão da vida pretérita, a partir daí buscamos justiça na lei; porquanto, se fosse assim, estaria escarnecendo e zombando de nós, enganando-nos com uma falsa esperança. Ora, uma vez que por todo o tempo que nos achamos revestidos dessa carne não nos pode advir nenhuma perfeição, ao contrário, a lei anuncia morte e juízo a todos os que, em virtude das obras, não puderam exercer justiça integral, ela terá sempre o de que nos acusar e fazer-nos culpados, a menos que em contraposição intervenha a misericórdia de Deus, a qual, pela constante remissão dos pecados, nos absolva reiteradamente. Isto posto, o que dissemos no início paira sempre evidente, a saber, se nos estimarmos por nossa dignidade, seja o que for que intentemos ou executemos, no entanto somos dignos de morte e perdição com todos os nossos esforços e boa vontade.

João Calvino