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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

NEM MESMO OS REGENERADOS PELO ESPÍRITO DE DEUS OSTENTAM OBRAS QUE NÃO SEJAM CONSPURCADAS AOS OLHOS DELE

Examinemos agora que justiça possuem os que pusemos na quarta classe. Admitimos que, quando Deus nos reconcilia consigo por meio da justiça de Cristo, e nos havendo concedido a remissão gratuita de nossos pecados nos reputa por justos, juntamente com esta misericórdia está outro benefício, a saber, que o Espírito Santo habita em nós; em virtude do qual, a concupiscência de nossa carne é paulatinamente mortificada; e que somos santificados; isto é, somos consagrados ao Senhor para a verdadeira pureza de vida, com nosso coração conformado à obediência da lei, a fim de que esta seja nossa principal vontade: servir à sua vontade e promover, de todos os modos, unicamente sua glória. Mas, de fato, ainda quando, pela direção do Espírito Santo, andamos nos caminhos do Senhor, contudo, para que, esquecidos de nós mesmos, não exaltemos o ânimo, permanecem resquícios de imperfeição que nos propiciam motivo para humildade. A Escritura afirma que “Não há justo, nem sequer um, não há quem faça o bem e não peque” [1Rs 8.46; Ec 7.20]. Portanto, que justiça mesmo os fiéis obterão por suas obras? Em primeiro lugar, afirmo que a obra mais excelente que podem propor está, contudo, sempre manchada e corrompida de alguma impureza da carne, como se estivesse envolta por escória. Digo que, de toda sua vida, o santo servo de Deus escolha o que, em seu curso, julgar ter feito de mais sublime. Quando as minúcias, uma a uma, forem rememoradas, sem dúvida achará nelas algo que exala a podridão e hediondez da carne, uma vez que nossa disposição jamais será agir bem como se deve; ao contrário, muitas são as fraquezas que nos retardam a corrida. Ainda que não vejamos as manchas como sendo obscuras, as quais salpicaram as obras dos santos, no entanto são visualizadas como meras nódoas mui diminutas: porventura nada disso ofenderá os olhos de Deus, perante os quais nem as próprias estrelas na verdade são puras [Jó 25.5]? Não temos sequer uma obra que proceda dos próprios santos, as quais, se julgadas em si, não mereçam a justa recompensa do infortúnio.

João Calvino