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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

CONSIDERAÇÕES ADICIONAIS DE QUE AS OBRAS DOS NÃO-SANTIFICADOS PELO ESPÍRITO DO SENHOR NÃO SE REVESTEM NENHUM MÉRITO JUSTIFICATÓRIO; AFINAL SÓ VALE A FÉ PARA A JUSTIFICAÇÃO

Ele trata magistralmente da mesma coisa também em Isaías: “Não ofereçais”, diz ele, “sacrifício vão; o incenso é para mim abominação; minha alma odeia vossas luas novas, e vossas solenidades se fizeram repugnantes; já estou cansado de as suportar. Quando estendeis vossas mãos, escondo de vós meus olhos; e ainda que multipliqueis vossas orações, não as ouvirei, porque vossas mãos estão cheias de sangue. Lavai-vos, sede limpos, removei o mal de vossas cogitações” [Is 1.13-16]. Significa que o Senhor sente tanta náusea pela observância de sua Lei? Na realidade, ele aqui não despreza a verdadeira e pura observância da lei, cujo princípio, ensina ele por toda parte, é o sincero temor de seu nome. Uma vez prescindido esse temor, tudo quanto lhe é oferecido não só será vaidade, mas também imundícia, hediondez e abominação. Que agora os hipócritas se vão e, retendo oculta no coração sua depravação, diligenciem por merecer a graça de Deus com suas boas obras! Com efeito, desse modo haverão de o irritar ainda mais. “O sacrifício dos ímpios é abominável ao Senhor, mas a oração dos retos é seu contentamento” [Pv 15.8]. Concluímos, pois, sem qualquer dúvida, o que deve ser por demais corriqueiro àqueles que são medianamente exercitado nas Escrituras, que mesmo as obras que são evidentes aos olhos dos homens que ainda não são verdadeiramente santificados, mui longe estão de constituir justiça diante do Senhor, o qual as considerará como pecado. E daí, com muita verdade falaram aqueles que ensinaram que a graça de Deus não se concilia à pessoa mediante obras; mas, ao contrário, as obras agradam a Deus quando a pessoa antes acha favor à vista dele. E cumpre observar-se religiosamente esta ordem à qual a Escritura nos conduz pela mão. Moisés escreve que o Senhor atentou para Abel e para suas obras [Gn 4.4]. Vês como Moisés demonstra que Deus se fez propício aos homens antes de contemplar suas obras? Por isso, para que as obras que procedem de nós sejam por Deus benignamente recebidas, impõe-se que sejam precedidas pela purificação do coração, uma vez que vigore sempre esta declaração de Jeremias, de que os olhos de Deus atentam para a verdade [Jr 5.3]. Com efeito, que somente a féé o que purifica os corações dos homens, o Espírito Santo declarou pela boca de Pedro [At 15.9], donde se evidencia que o primeiro fundamento consiste na fé verdadeira e viva.

João Calvino