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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

TAMPOUCO O QUE PAULO AFIRMA EM 1 CORÍNTIOS 11 É ARGUMENTO VÁLIDO EM PROL DAS OBRAS DE SUPERERROGAÇÃO

Muito fora de propósito, alegam para provar isto a exaltação pessoal de Paulo, quando se gloria de que entre os coríntios, espontaneamente, ele havia cedido seu direito, ainda que lhe era lícito usar dele como bem quisesse;206 nem lhes devotara apenas o que devia por ofício, como também lhes prodigalizara obra graciosa, além do limite da obrigação. Entretanto, convinha volver a atenção para a razão ali assinalada, ou, seja, que isso ele devia fazer para que não viesse a ser pedra de tropeço para os fracos [1Co 9.12]. Porque os maus apóstolos que então perturbavam a Igreja se ufanavam de que não aceitavam coisa alguma em troca de seu trabalho e suas fadigas; e isso faziam para que sua perversa doutrina fosse mais estimada e assim suscitasse o ódio contra o evangelho; de tal maneira Paulo se viu obrigado, ou a pôr em perigo a doutrina de Cristo, ou a buscar um remédio para tais estratagemas. Pois bem, se a um homem cristão é algo indiferente constituir-se ele em pedra de tropeço, quando tal coisa se pode evitar, admito que o Apóstolo fez algo de supererrogação ao Senhor; entretanto, se de direito isso mesmo se requeria do prudente despenseiro do evangelho, afirmo que ele fez o que devia. Finalmente, mesmo que tal causa não se põe à mostra, entretanto é sempre verdadeira esta observação de Crisóstomo: todas as nossas coisas têm a mesma condição que as posses de escravos, ou, seja, que tudo por direito pertence ao Senhor. Tampouco Cristo omite isso na parábola, pois pergunta que agradecimento teremos para com um servo, quando, assoberbado por todo um dia de labor variado, à noite ele tenha voltado a nós [Lc 17.7-9]. Com efeito, pode ocorrer que haja ele trabalhado muito mais do que haveríamos ousado exigir-lhe. Entretanto, nada fez que, de sua condição de serviçal não o devesse, porque ele é nosso, com toda sua capacidade. Deixo de expor de que natureza são as supererrogações que esses querem impingir a Deus, pois são trivialidades que nem ele próprio jamais ordenou, nem aprova, nem jamais as aceitará, quando se tiver que prestar-lhe conta. Nesta acepção, enfim, admitimos haver obras de supererrogação, ou, seja, aquelas acerca das quais foi dito pelo Profeta: “Quem requereu estas coisas de vossas mãos?” [Is 1.12]. Mas lembrem-se de que há também menção delas em outro lugar: “Por que gastais vosso dinheiro no que não é pão, e o produto de vosso labor naquilo que não satisfaz?” [Is 55.2]. Certamente que não é muito laborioso para esses rabinos ociosos discutir essas coisas à sombra, em cadeiras macias. Quando, porém, aquele Juiz Supremo estiver assentado no tribunal, inevitavelmente se desvanecerão todos os pareceres balofos desse gênero. Ora, o que deveríamos fazer é munir-nos da confiança de que podemos levar para responder por nós quando comparecermos perante seu tribunal; e não o que se pode discutir ou mentir nos recantos das escolas de teologia.

João Calvino