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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

A JUSTIÇA SALVÍFICA, RESULTANTE DA FÉ E INSINUANDO UM CORAÇÃO REGENERADO, É TOTALMENTE ALHEIA AOS HIPÓCRITAS E AOS CRISTÃOS NOMINAIS, CUJAS OBRAS, CORRUPTAS E MÁS, SÃO SEM VALOR À VISTA DE DEUS

Sob esta condição compreende-se também a classe de homens que foi referida como segunda e terceira na divisão proposta. Pois a impureza de consciência a uns e outros desses dois tipos de homens acusa que ainda não foram regenerados pelo Espírito de Deus. Mas, por outro lado, a ausência de regeneração neles, e neles se exibe a carência de fé. Do quê se demonstraque não foram ainda reconciliados com Deus; não foram ainda justificados a seus olhos, quando estes benefícios não se alcançam a não ser mediante a fé. Que poderão engendrar pecadores alienados de Deus, senão ações execráveis a seu juízo? É verdade que os ímpios, e principalmente os hipócritas, se enchem desta vã confiança, ou, seja, por mais que reconheçam que todo seu coração transborda de obscenidade, contudo, se fazem algumas obras boas à vista, as estimam como sendo dignas de não serem rejeitadas por Deus. Daqui esse pernicioso erro de que, convencidos de mente celerada e nefanda, contudo, não podem ser compelidos a confessar que são vazios de justiça; pelo contrário, mesmo reconhecendo-se injustos, porquanto não o podem negar, ainda assim alegam possuir alguma justiça. O Senhor refuta esta vã presunçãode forma eminente através do Profeta. “Interroga”, diz ele, “os sacerdotes, dizendo: Se um homem trouxer carne santificada na orla de sua vestimenta e encostá-la em pão ou outro alimento, porventura ele ficará santificado? Responderam, então, os sacerdotes: Não! E disse Ageu: Se um homem poluído na alma houver tocado alguma destas coisas, porventura não ficará ela contaminada? Responderam os sacerdotes: Ficará contaminada. Disse Ageu: Assim é este povo, e assim é esta nação diante de mim, diz o Senhor; e assim é toda a obra de suas mãos; e tudo o que ali oferecem é imundo” [Ag 2.11-14]. Tomara que esta sentença pudesse obter em nós plena fé, ou alojar-se devidamente em nossa memória. Pois não há ninguém, por mais corrompido que fosse ele em toda sua vida, que permita persuadir-se do que claramente aqui pronuncia o Senhor. Ainda o indivíduo mais ímpio, tão logo tenha se desincumbido de um ou outro dever da lei, não nutre nenhuma dúvida de que isso lhe será levado em conta como justiça; mas o Senhor proclama que daí não se adquire nenhuma santificação, a não ser que o coração antes seja purificado. E não contente com isso, assevera que todas as obras que procedem dos pecadores estão contaminadas com a impureza de seu coração. Portanto, evite-se dar o nome de justiça às obras que são condenadas pela boca do Senhor como obras de poluição. E com que admirável similitude o demonstra ele! Pois se poderia objetar ser inviolavelmente santo o que o Senhor houvesse preceituado. Ele, porém, ao contrário, interpõe dizendo que não há de que admirar se, se as coisas que foram santificadas na lei do Senhor são contaminadas pela imundície dos réprobos, quando ao manipular o que é sacro, a mão imunda o profane.

João Calvino