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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

NÃO HÁ VIRTUDE REAL, NEM VERDADEIRAS BOAS OBRAS QUE NÃO SEJAM MOTIVADAS PELA FÉ, A SERVIÇO DE DEUS, DO CONTRÁRIO PROCEDEM DE INTENÇÕES IMPURAS

Com efeito, o que Agostinho escreve é, não obstante, verdadeiro, ou, seja, Todos os que estão alienados da religião do Deus único, por mais que sejam tidos por dignos de admiraçãoem razão de sua reputação de virtude, não só não são dignos de qualquer recompensa, como também, são ainda mais dignos de castigo, porquanto com a depravaçãode seu coração contaminam as coisas boas e puras de Deus. Pois, ainda que sejam instrumentos para conservar a sociedade humana em justiça, em continência, em amizade, em temperança, em força, em prudência, entretanto, desempenham essas boas obras de Deus mui insatisfatoriamente, visto que são impedidos de agir mal não por sincero zelo do bem, mas ou por mera ambição, ou por amor egoísta, ou por qualquer outro motivo oblíquo. Portanto, quando pela própria impureza de coração estas boas obras são corrompidas, que é sua fonte origem, não devem ser tidas por virtudes mais que os vícios que costumam enganar em razão de sua afinidade e semelhança de virtude. Enfim, sempre que sabemos que o único e perpétuo fim da justiça é que sirvamos a Deus, tudo quanto a outro rumo se desvia, então com toda razão perde o nome de reto. Portanto, já que tais pessoas não visam ao propósito que a sabedoria de Deus estabelece, ainda que no desempenho o que fazem pareça bom, entretanto, pervertido o propósito, isso é pecado.192 Conseqüentemente, Agostinho conclui que todos os Fabrícios, Cipiões e Catões, nesses seus feitos preclaros, nisto têm pecado; porque, ao estar privados da luz da fé, não dirigiram suas obras ao fim que deviam. Por isso se diz que não tinham verdadeira justiça, pois o dever de cada um é considerado não pelo que faz, mas com que propósito o faz.

João Calvino