Os subterfúgios que os escolastas aqui buscam para evadir-se, não os desemaranham.
Dizem que as boas obras não são de tão grande valia em sua dignidade intrínseca
que sejam suficientes para adquirir justiça, mas o que vale mesmo é da graça
aceitante. Então, porque são obrigados a confessar que a justiça das obras neste
mundo é sempre imperfeita, admitem que, enquanto vivemos, necessitamos de remissão
dos pecados, mediante a qual a deficiência das obras é suprida, mas os delitos
que se cometem são compensados por obras de supererrogação.
Ora, aquela a que chamam graça aceitante, respondo que outra não é senão sua
graciosa bondade, em virtude da qual o Pai nos abraça em Cristo, quando nos reveste
da inocência de Cristo, e no-la credita, para que por seu benefício nos tenha por
santos, puros e inocentes. Pois se faz necessário que a justiça de Cristo, que, assim
como é a única perfeita, também a única que pode suportar a presença de Deus,
compareça em nosso favor e seja nossa representante como fiadora no juízo. Providos
nós dessa justiça, obtemos pela fé constante remissão dos pecados. Veladas pela
pureza desta fé, a sordidez e imundícia das imperfeições não nos são imputadas;
pelo contrário, são ocultadas, como que sepultadas, para que não compareçam ao
juízo de Deus, até que chegue a hora em que, morto em nós e de todo extinto o velho
homem, a divina bondade nos receba à bem-aventurada paz com o novo Adão, enquanto
esperamos o dia do Senhor, no qual, recebendo corpos incorruptíveis, sejamos
transferidos à glória do reino celeste.
João Calvino