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quarta-feira, 19 de setembro de 2018

AS PRÓPRIAS OBRAS DOS PIEDOSOS ESTÃO LONGE DE SER MERITÓRIAS PARA A JUSTIFICAÇÃO, A QUAL SEMPRE E SOMENTE PROCEDE DA FÉ

É preciso insistir firmemente nestes dois elementos: primeiro, que jamais existiu sequer uma obra de um homem piedoso que, se examinada pelo severo juízo de Deus, não houvesse de ser condenável; segundo, se isso viesse a acontecer – o que ao homem não é possível –, contudo, visto tal obra estar viciada e manchada pelos pecados do próprio autor, ela perderia o favor. E este é a ponto capital de nossa disputa. Ora, quanto ao princípio de justificação, não existe contenda entre nós e os escolastas mais judiciosos, isto é, que o pecador, graciosamente liberado da condenação, alcança justiça, e isso pela remissão dos pecados; a não ser que eles, pelo termo justificação, compreendem a renovação em virtude da qual somos restaurados pelo Espírito de Deus à obediência da lei. Aliás, assim descrevem a justiça do homem regenerado, que este, uma vez reconciliado com Deus pela fé em Cristo, é considerado justo diante de Deus por suas boas obras e é aceito pelo mérito delas. O Senhor, porém, declara, em contrário, que a Abraão a fé foi imputada para justiça [Rm 4.3, 9, 13], não durante o tempo em que ainda servia aos ídolos, mas então, quando já por muitos anos se sobressaíra em santidade de vida. Portanto, por longo tempo Abraão havia adorado a Deus com um coração puro, e prestou a obediência à lei que pode ser prestada pelo homem mortal. Contudo, continua tendo sua justiça posta na fé. Do quê concluímos, segundo o arrazoado de Paulo, que essa justiça não resulta das obras. De igual modo, quando no Profeta se diz: “O justo viverá da fé” [Hc 2.4], não está a tratar acerca de ímpios e profanos, a quem o Senhor, em convertendo-os à fé, justifica; pelo contrário, a palavra se dirige a fiéis e lhes promete que sua vida fluirá da fé. Paulo também dissipa toda dificuldade quando, em confirmação desta idéia, toma este versículo de Davi: “Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades foram perdoadas” [Sl 32.1; Rm 4.7]. Contudo, é certo que Davi não está falando de ímpios, mas de fiéis, justamente como era ele pessoalmente, pois falava do senso de sua consciência. Portanto, importa-nos ter esta bem-aventurança não uma só vez, mas conservá-la durante toda a vida. Finalmente, ele atesta que a embaixada referente à graciosa reconciliação com Deus é promulgada não para um ou outro dia; ao contrário, ela é perpétua na Igreja [2Co 5.18, 19]. Daí não ter os fiéis outra justiça até o fim da vida, senão aquela que aí se descreve. Pois Cristo permanece perpetuamente sendo o Mediador que nos reconciliará com o Pai, e perpétua é a eficácia de sua morte, a saber: lavagem, satisfação, expiação, enfim, perfeita obediência, mercê da qual todas as iniqüidades nos são cobertas. Tampouco diz Paulo aos efésios que tivemos na graça o início da salvação; mas, ao contrário, que pela graça fomos salvos, “não pelas obras, para que ninguém se glorie” [Ef 2.8, 9].

João Calvino