É preciso insistir firmemente nestes dois elementos: primeiro, que jamais existiu
sequer uma obra de um homem piedoso que, se examinada pelo severo juízo de
Deus, não houvesse de ser condenável; segundo, se isso viesse a acontecer – o que
ao homem não é possível –, contudo, visto tal obra estar viciada e manchada pelos
pecados do próprio autor, ela perderia o favor.
E este é a ponto capital de nossa disputa. Ora, quanto ao princípio de justificação,
não existe contenda entre nós e os escolastas mais judiciosos, isto é, que o
pecador, graciosamente liberado da condenação, alcança justiça, e isso pela remissão
dos pecados; a não ser que eles, pelo termo justificação, compreendem a renovação
em virtude da qual somos restaurados pelo Espírito de Deus à obediência da
lei. Aliás, assim descrevem a justiça do homem regenerado, que este, uma vez reconciliado
com Deus pela fé em Cristo, é considerado justo diante de Deus por suas boas obras e é aceito pelo mérito delas. O Senhor, porém, declara, em contrário, que
a Abraão a fé foi imputada para justiça [Rm 4.3, 9, 13], não durante o tempo em que
ainda servia aos ídolos, mas então, quando já por muitos anos se sobressaíra em
santidade de vida. Portanto, por longo tempo Abraão havia adorado a Deus com um
coração puro, e prestou a obediência à lei que pode ser prestada pelo homem mortal.
Contudo, continua tendo sua justiça posta na fé. Do quê concluímos, segundo o
arrazoado de Paulo, que essa justiça não resulta das obras.
De igual modo, quando no Profeta se diz: “O justo viverá da fé” [Hc 2.4], não
está a tratar acerca de ímpios e profanos, a quem o Senhor, em convertendo-os à fé,
justifica; pelo contrário, a palavra se dirige a fiéis e lhes promete que sua vida fluirá
da fé. Paulo também dissipa toda dificuldade quando, em confirmação desta idéia,
toma este versículo de Davi: “Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades foram
perdoadas” [Sl 32.1; Rm 4.7]. Contudo, é certo que Davi não está falando de ímpios,
mas de fiéis, justamente como era ele pessoalmente, pois falava do senso de sua
consciência. Portanto, importa-nos ter esta bem-aventurança não uma só vez, mas
conservá-la durante toda a vida.
Finalmente, ele atesta que a embaixada referente à graciosa reconciliação com
Deus é promulgada não para um ou outro dia; ao contrário, ela é perpétua na Igreja
[2Co 5.18, 19]. Daí não ter os fiéis outra justiça até o fim da vida, senão aquela que
aí se descreve. Pois Cristo permanece perpetuamente sendo o Mediador que nos
reconciliará com o Pai, e perpétua é a eficácia de sua morte, a saber: lavagem,
satisfação, expiação, enfim, perfeita obediência, mercê da qual todas as iniqüidades
nos são cobertas. Tampouco diz Paulo aos efésios que tivemos na graça o início da
salvação; mas, ao contrário, que pela graça fomos salvos, “não pelas obras, para que
ninguém se glorie” [Ef 2.8, 9].
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32