Total de visualizações de página

quinta-feira, 13 de setembro de 2018

HÁ NOS INCRÉDULOS VIRTUDES E BOAS OBRAS, AS QUAIS, NO ENTANTO, SE DEVEM À DIVINA MUNIFICÊNCIA, FRUTOS DA GRAÇA COMUM

De princípio, não nego que as munificências de Deus sejam todos e quaisquer dotes excelentes que se revelam nos incrédulos. Não estou tão privado de senso comum que intente afirmar que não existe diferença alguma entre a justiça, a moderação e a eqüidade de Tito e Trajano, que foram ótimos imperadores romanos, e a raiva, a fúria e crueldade de Calígula, de Nero e de Domiciano, que reinaram como bestas furiosas; entre os obscenos desregramentos de Tibério e a continência de Vespasiano; nem – para não nos determos mais em cada uma das virtudes e dos vícios em particular – entre a observância das leis e o menosprezo das mesmas.191 Ora, tão grande é a diferença do justo e do injusto, que se revela até mesmo na imagem morta. Pois, que restará de ordem no mundo, se confundirmos estas coisas entre si? Portanto, distinção desta natureza, entre atos dignos e atos indignos, insculpiu Deus não só na mente de cada um de nós, mas também a confirma, freqüentemente, pela administração de sua providência. Pois vemos que ele recompensa com muitas bênçãos da presente vida àqueles que cultivam a virtude entre os homens. Não que essa representação exterior de virtude esteja no coração sua verdadeira justiça, enquanto até mesmo a justiça exterior e simulada não merece carecer de recompensa temporal. Donde se segue o que já confessamos pouco antes, a saber, que essas virtudes são dádivas de Deus, ou, antes, aparências de virtudes, não importa sua natureza, uma vez que não existe coisa alguma digna de ser louvada que não proceda dele.

João Calvino