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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

TÃO-SOMENTE NA MISERICÓRDIA DIVINA TEM O HOMEM JUSTIÇA SALVÍFICA, NESSE SENTIDO NADA PODENDO FAZER POR SI MESMO, POIS ESTÁ MORTO EM SEUS PRÓPRIOS DELITOS E PECADOS

Repetidamente me vem o mesmo pensamento, de que há o risco de estar eu sendo injusto para com a misericórdia de Deus, esforçando-me com tão grande ansiedade por defendê-la e mantê-la, como se porventura fosse duvidosa ou obscura. Mas como nossa malícia é tal que jamais dá a Deus o que lhe pertence, se não se vê forçada pela necessidade, me vejo obrigado a deter-me aqui algo mais do que quisera. Entretanto, visto que a Escritura é muitíssima evidente nesta matéria, combaterei com mais empenho com suas palavras do que com as minhas. Isaías, quandodescreveu a ruína universal do gênero humano, acrescenta auspiciosamente a ordem da restauração: “O Senhor viu, e pareceu mal a seus olhos o não haver justiça. E vendo que ninguém havia, admirou-se de que não houvesse um intercessor; por isso seu próprio braço, e sua própria justiça o susteve” [Is 59.15, 16]. Onde estão nossas justiças, se o que disse o Profeta é verdadeiro: não há ninguémque ao Senhor assista e a salvação seja restaurada? Assim outro Profeta, quandointroduz o Senhor agindo para reconciliar os pecadores consigo mesmo: “Desposar-te-ei comigo para sempre”, diz ele, “ em justiça, em juízo, em graça e em misericórdia. E compadecer-me-ei dela que não obteve misericórdia” [Os 2.19-23]. Se tal pacto, que é a primeira união de Deus conosco, se apóia na misericórdia de Deus, não nos fica nenhum outro fundamento à nossa justiça. Certamente gostaria de indagar desses que imaginam poder o homem ir ao encontro de Deus levando alguma justiça de obras pessoais, se porventura crêem que exista realmente alguma justiça senão aquela que agrade a Deus. Se só pensar isso é insano, o que vem de seus inimigos que seja agradável a Deus, quando abomina a todos eles, com todos os seus feitos? Digo que todos nós somos inimigos capitais e professos de nosso Deus, até que, justificados, sejamos recebidos à sua amizade, o que comprovado pela verdade [Rm 5.10; Cl 1.21, 22]. Se a justificação é o princípio do amor mercê do qual Deus se nos faz propício, que tipo de justiça de obras humanas a precederão? Portanto, para prevenir essa pestilenta arrogância, João diligentemente nos adverte dizendo que não o amamos primeiro [1Jo 4.10]. E isso mesmo o Senhor já havia ensinado outrora através de seu Profeta: “Eu voluntariamente os amarei”, diz ele, “porque minha ira se apartou deles” [Os 14.4]. Certamente, se ele por sua benevolência não inclinar-se a nos amar, muito menos nossas obras o poderão.198 A massa ignara dos homens, porém, não pensa ser isso outra coisa, senão que ninguém há que previamente mereça que Cristo consumasse nossa redenção, mas, para que nos acheguemos à posse dessa redenção, somos assistidos por nossas obras. Mas, de fato, por mais que sejamos redimidos por Cristo, contudo, até que sejamos inseridos à sua comunhão pela vocação do Pai, não somos mais que trevas e herdeiros da morte, mas também inimigos de Deus. Paulo, pois, ensina que não somos purgados de nossas imundícies, e lavados pelo sangue de Cristo, a não ser quando essa purificação nos é efetuada pelo Espírito [1Co 6.11]. E Pedro, querendo dizer o mesmo, declara que a santificação do Espíritonos vale “para a obediência e a aspersão do sangue de Cristo” [1Pe 1.2]. Se somos aspergidos pelo sangue de Cristo, através do Espirito, não pensemos que antes dessa aspersão somos outra coisa senão o que é um pecador sem Cristo.199 Que este, pois, permaneça como o princípio de nossa salvação: que ela é uma espécie de ressurreição da morte para a vida; porque, quando por amor de Cristo se nos concedeu nele crer [Fp 1.29], então, e não antes, começamos a passar da morte para a vida.

João Calvino