Repetidamente me vem o mesmo pensamento, de que há o risco de estar eu
sendo injusto para com a misericórdia de Deus, esforçando-me com tão grande ansiedade
por defendê-la e mantê-la, como se porventura fosse duvidosa ou obscura.
Mas como nossa malícia é tal que jamais dá a Deus o que lhe pertence, se não se vê
forçada pela necessidade, me vejo obrigado a deter-me aqui algo mais do que quisera.
Entretanto, visto que a Escritura é muitíssima evidente nesta matéria, combaterei
com mais empenho com suas palavras do que com as minhas.
Isaías, quandodescreveu a ruína universal do gênero humano, acrescenta auspiciosamente
a ordem da restauração: “O Senhor viu, e pareceu mal a seus olhos o não
haver justiça. E vendo que ninguém havia, admirou-se de que não houvesse um
intercessor; por isso seu próprio braço, e sua própria justiça o susteve” [Is 59.15,
16]. Onde estão nossas justiças, se o que disse o Profeta é verdadeiro: não há ninguémque
ao Senhor assista e a salvação seja restaurada? Assim outro Profeta, quandointroduz
o Senhor agindo para reconciliar os pecadores consigo mesmo: “Desposar-te-ei comigo para sempre”, diz ele, “ em justiça, em juízo, em graça e em misericórdia.
E compadecer-me-ei dela que não obteve misericórdia” [Os 2.19-23]. Se
tal pacto, que é a primeira união de Deus conosco, se apóia na misericórdia de Deus,
não nos fica nenhum outro fundamento à nossa justiça.
Certamente gostaria de indagar desses que imaginam poder o homem ir ao encontro
de Deus levando alguma justiça de obras pessoais, se porventura crêem que
exista realmente alguma justiça senão aquela que agrade a Deus. Se só pensar isso
é insano, o que vem de seus inimigos que seja agradável a Deus, quando abomina a
todos eles, com todos os seus feitos? Digo que todos nós somos inimigos capitais e
professos de nosso Deus, até que, justificados, sejamos recebidos à sua amizade, o
que comprovado pela verdade [Rm 5.10; Cl 1.21, 22]. Se a justificação é o princípio
do amor mercê do qual Deus se nos faz propício, que tipo de justiça de obras humanas
a precederão? Portanto, para prevenir essa pestilenta arrogância, João diligentemente
nos adverte dizendo que não o amamos primeiro [1Jo 4.10]. E isso mesmo o
Senhor já havia ensinado outrora através de seu Profeta: “Eu voluntariamente os
amarei”, diz ele, “porque minha ira se apartou deles” [Os 14.4]. Certamente, se ele
por sua benevolência não inclinar-se a nos amar, muito menos nossas obras o
poderão.198
A massa ignara dos homens, porém, não pensa ser isso outra coisa, senão que
ninguém há que previamente mereça que Cristo consumasse nossa redenção, mas,
para que nos acheguemos à posse dessa redenção, somos assistidos por nossas obras.
Mas, de fato, por mais que sejamos redimidos por Cristo, contudo, até que sejamos
inseridos à sua comunhão pela vocação do Pai, não somos mais que trevas e herdeiros
da morte, mas também inimigos de Deus. Paulo, pois, ensina que não somos
purgados de nossas imundícies, e lavados pelo sangue de Cristo, a não ser quando
essa purificação nos é efetuada pelo Espírito [1Co 6.11]. E Pedro, querendo dizer o
mesmo, declara que a santificação do Espíritonos vale “para a obediência e a aspersão
do sangue de Cristo” [1Pe 1.2]. Se somos aspergidos pelo sangue de Cristo,
através do Espirito, não pensemos que antes dessa aspersão somos outra coisa senão
o que é um pecador sem Cristo.199
Que este, pois, permaneça como o princípio de nossa salvação: que ela é uma
espécie de ressurreição da morte para a vida; porque, quando por amor de Cristo se
nos concedeu nele crer [Fp 1.29], então, e não antes, começamos a passar da morte
para a vida.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32