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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

AS BOAS OBRAS QUE SÃO APRAZÍVEIS A DEUS NÃO EMANAM DE NOSSA PRÓPRIA JUSTIÇA, MAS DA GRAÇA DIVINA QUE NOS VIVIFICA PARA NOVIDADE DE VIDA

Tudo isso, porém, ficará muito mais evidente se de um lado considerarmos a graça de Deus, e do outro a condição natural do homem.196 Pois a Escritura por toda parte proclama que Deus não acha nada no homem que o incite a ser benevolente para com ele; pelo contrário, ele vem ao seu encontro com sua graciosa benignidade. Ora, é possível que um morto volva à vida? Entretanto, quando Deus nos ilumina com conhecimento, diz-se que voltamos da morte [Jo 5.25] e nos tornamos novas criaturas [2Co 5.17]. Com efeito, mediante esta representação, especialmente no Apóstolo, vemos que a benignidade de Deus para conosco nos é freqüentemente recomendada. “Deus”, diz ele, “que é rico em misericórdia, em decorrência do muito amorcom que nos amou, ainda quando estávamos mortos em pecados, nos vivificou juntamente com ele em Cristo” etc. [Ef 2.4, 5]. Em outro lugar, enquanto trata da vocação geral dos gentios sob o tipo de Abraão, diz: “Deus”, diz ele, “é quem vivifica os mortos e chama à existência as coisas que não são” [Rm 4.17]. Então pergunto: Se nada somos, que possibilidade temos nós? Por isso, na história de Jó, o Senhor reprime rigorosamente essa arrogância, nestas palavras: “Quem primeiro me deu, para que eu haja retribuir-lhe? Pois todas as coisas que estão debaixo do céu são minhas” [Jó 41.11]; afirmação que Paulo explica neste resumo: não imaginemos que podemos trazer algo ao Senhor, a não ser a mera ignomínia de nossa indigência e futilidade [Rm 11.35]. Por essa razão, na passagemsupra-citada, para provar que só por sua graça, não pelas obras, podemos obter a esperança da salvação, ele declara que “somos criaturas suas, já que fomos regenerados em Cristo Jesus para as boas obras, que Deus de antemão preparou para que andemos nelas” [Ef 2.10]. Como se estivesse a dizer: Quem de nós se vangloriará de haver recorrido a Deus por meio de sua própria justiça, quando nossa primeira virtude e faculdade para agir procede da regeneração? Ora, segundo nossa própria natureza, é mais fácil tirarmos azeite de uma pedra, do que de nós uma boa obra. É de fato surpreendente que o homem, condenado por tanta ignomínia, se atreva ainda a dizer que lhe resta algo bom. Portanto, confessemos com esse excelente instrumento de Deus que “fomos chamados pelo Senhor com um santo chamamento, não segundo nossas obras, mas segundo seu propósito e graça” [2Tm 1.9]; e que “de Deus, nosso Salvador, manifestou sua benignidade e amor para conosco, visto que nos salvou, não por obras de justiça que tenhamos feito, mas segundo sua misericórdia, para que, justificados por sua graça, nos tornássemos herdeiros da vida eterna” [Tt 3.4, 5, 7]. Com esta confissão, despojamos o homem de toda justiça pessoal, até a mais ínfima partícula; e assim, por sua misericórdia, ele nos regenerou para a esperança da vida eterna; uma vez que, se de fato a justiça das obras nos conferisse algo, para nos justificar, falsamente nos seria dito que somos justificados pela graça. Obviamente, quando ele aí afirma que a justificação é graciosa, o Apóstolo não se mostrou esquecidiço, o qual argumenta em outro lugar que a graça já não seria graça, se porventura as obras valessem alguma coisa [Rm 11.6]. E que outra coisa o Senhor quer dizer quando nega ter vindo chamar justos, e, sim, pecadores” [Mt 9.13]? Se somente os pecadores são admitidos, por que se busca acesso por meio de nossa justiça fictícia?

João Calvino