Além disso, para que Osiandro não engane aos inexperientes com seus sofismas,
afirmo que estamos privados dessa tão incomparável justiça de Cristo até que
ele se faça nosso. Portanto, essa conjunção da Cabeça e dos membros, essa morada
de Cristo em nosso coração, enfim, essa união mística de Cristo conosco é por nós
estatuída como da mais alta importância, de modo que, feito nosso, Cristo nos faça
participantes dos dons de que foi dotado. Daí, para que sua justiça nos seja imputada,
não o visualizamos ao longe, fora de nós; mas, porque dele nos vestimos e em
seu corpo fomos enxertados, enfim, ele foi dignado fazer-nos um consigo, por isso
nos gloriamos de ter com ele participação em sua justiça. E assim fica refutada a
afirmação caluniosa de Osiandro de que a fé nos é contada por justiça. Como se
esbulhássemos a Cristo de seu direito quando dizemos que, mediante a fé, nos achegamos
a ele vazios, de modo que damos lugar à sua graça para que ele nos encha de
justiça. Osiandro, porém, rejeitando esta conjunção espiritual, insiste na crassa mistura
de Cristo com os fiéis, e por isso maldosamente chama de zwinglianos a todos
quantos não subscrevem ao seu fanático erro acerca da justiça essencial, visto que
não concordam que Cristo é substancialmente comido na Ceia.
Na verdade, a mim representa suma glória ouvir esta invectiva da parte de um
homem presunçosoe entregue a suas sutilezas, se bem que ele acosse não somente a
mim, mas também a escritores sobejamente conhecidos no mundo, a quem ele deveria
reverenciar com modéstia. Pessoalmente, nada me importa, visto que não estou
legislando em causa própria. Por isso, ainda mais sinceramente me entrego esta
causa, já que estou livre de todo sentimento indigno. Portanto, o fato de tão irracionalmente
insistir na justiça essencial, e na habitação essencial de Cristo em nós, isso
se deve, primeiramente, que Deus infiltra em nós uma crassa mistura, assim como
na Ceia ele imagina uma mastigação física; em segundo lugar, que sopra em nós sua
justiça, mediante a qual somos realmente justos com ele, uma vez que, em sua opinião,
esta justiça tanto é o próprio Deus quanto a bondade, a santidade e a integridade
de Deus.
Não gastarei muito de esforço em refutaros testemunhos da Escritura que Osiandro adiciona, os quais ele torce incorretamente, da vida celeste à situação presente.
“Através de Cristo”, diz Pedro, “nos foram dadas promessas preciosas e mui grandes,
para tornar-nos participantes da natureza divina” [2Pe 1.4]. Como se já agora
fôssemos quais o evangelho promete que seremos na última vinda de Cristo! Com
efeito, João nos relembra que então haveremos de ver a Deus tal como ele é, porquanto
seremos semelhantes a ele [1Jo 3.2].
Apenas quis dar aos leitores uma leve amostra, se me for dada permissão de
descontinuar a consideração destas disputas, não que refutá-las seja algo difícil,
mas porque não desejo ser enfadonho num trabalho supérfluo.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32