Entretanto, maior veneno está latente no segundo item, onde ele ensina que
somos justos em conjunção com Deus. Julgo haver já provado suficientemente que,
embora esta doutrina não fosse tão nociva, contudo, visto que ela é frígida e débil, e
se dissipa em sua própria fatuidade, com razão deve ser insípida aos leitores judiciosos
e pios. É uma impiedade intolerável querer destruir a confiança de nossa salvação
sob o pretexto da dupla justiça, a qual esse demente quis forjar e querer-nos
fazer caminhar pelas nuvens para separar-nos da tranqüilidade de nossa consciência,
que se apoia na morte de Jesus Cristo, impedindo-nos de invocar a Deus com
ânimo tranqüilo e confiante. Ri-se Osiandro daqueles que ensinam que ser justificado é um termo forense,
pois insiste que nos é necessário ser justos. Também nada mais o abomina do que
sermos justificados por imputação gratuita. Mas, se Deus não nos justifica nos absolvendo
e perdoando, o que quer dizer esta afirmação de Paulo: “Deus estava em
Crista reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens seus pecados”,
pois “Aquele que não havia cometido pecado, ele o fez pecado por nós, para que
nele fôssemos justiça de Deus”? [2Co 5.19, 21]. Antes de tudo, obtenho disso que
considerados justos são aqueles que são reconciliados com Deus, e em seguida se
insere o modo dessa reconciliação: que Deus justifica perdoando, assim como em
outro lugar se contrasta justificação com acusação, antítese que demonstra claramente
que essa locução – ser justificado – foi tomada do uso forense. Certamente
que, qualquer pessoa que é medianamente versada na língua hebraica verá que tal
expressão é tomada daí e qual é seu verdadeiro alcance.
Agora, porém, que Osiandro me responda: quando Paulo diz que justiça sem
obras é descrita por Davi nestas palavras: “Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades
foram perdoadas” [Rm 4.7; Sl 32.1], porventura esta definição é plena, ou só
pela metade? Certamente que Paulo não evoca o Profeta por testemunha, como se
estivesse ensinando que o perdão dos pecados é parte da justiça ou concorre para
justificar o homem; pelo contrário, encerra toda a justiça na remissão gratuita,
pronunciando ser bem-aventurado o homem cujos pecados foram cobertos, a quem
Deus perdoouas iniqüidades e a quem não imputa as transgressões, e disso depende
toda sua felicidade, pois que essa pessoa não é inerentemente justa, mas o é por
imputação.
Osiandro objeta dizendo que tal coisa seria insultuosa a Deus e contrária à sua
natureza, pois que justifica os que de fato permanecem ímpios. Com efeito, é preciso
ter em mente o que eu já disse: que a graça de justificar não se separa da regeneração,
visto que são coisas distintas. No entanto, uma vez que, mediante a experiência,
é mais do que suficientemente notório que nos justos sempre perduram remanescentes
do pecado, eles são, necessariamente, justificados de maneira muito diferente
da que são regenerados para a novidade de vida. Pois Deus assim inicia este
segundo processo em seus eleitos, e nele progride paulatinamente, e por vezes lentamente,
por todo o decurso da vida, de modo que estão sempre sujeitos à sentença
de morte diante de seu tribunal. Ele os justifica, porém, não parcialmente, mas de
modo tal que, como que vestidos da pureza de Cristo, possam apresentar-se livremente
nos céus. Porque uma parte de justiça não apaziguaria a consciência, enquanto
não estivéssemos seguros de que agradamos a Deus, por isso somos justos diante
dele sem restrição.158 Donde se segue que a doutrina da justificação é transtornada e
abatida até os alicerces, quando se infunde dúvida às almas, abalada é a confiança
da salvação, a livre e animosa invocação de Deus sofre empecilho, ainda pior, não
se estabelece firmemente a paz e tranqüilidade com alegria espiritual. E esta é a
razão por que Paulo argumenta das coisas contrárias, para demonstrar que a herança
não provém da lei[Gl 3.18], já que, se dependesse das obras, ela seria destituída de
valor, visto que nem o mais santo acharia nela razão para se gloriar.
Esta distinção entre justificar e regenerar, a qual Osiandro, confundindo a ambos,
chama de dupla justiça, é eloqüentemente expressa por Paulo, pois, falando de
sua real justiça, ou da integridade de que fora dotado, à qual Osiandro impõe o título
de justiça essencial, exclama amargamente: “Miserável sou eu! Quem me livrará
do corpo desta morte?” [Rm 7.24]. Refugiando-se, porém, na justiça que se fundamenta unicamente na misericórdia de Deus, gloria-se ufanosamente, na vida, na
morte, nos ultrajes, na penúria, na espada e em todas as coisas adversas: “Quem
formulará acusação contra os eleitos de Deus, a quem ele próprio justifica? Pois
estou seguramente persuadido de que nada nos separará de seu amor em Cristo”
[Rm 8.33, 38, 39]. Proclama claramente possuir a justiça que é plenamente suficiente
é para a salvação diante de Deus; de tal maneira que aquela mísera servidão,
por cuja causa pouco antes deplorava sua sorte, por ser dela cônscio, em nada suprime
a confiança de gloriar-se, nem lhe serve de empecilho para conseguir seu intento.
Esta diversidade é suficientemente conhecida e particularmente familiar a todos
os santos, que gemem sob o fardo de suas iniqüidades, e contudo com vitoriosa
confiança sobrepujam a todos os temores.
Quanto ao que Osiandro objeta, de que isso não é próprio da natureza de Deus,
se volta contra ele; porquanto, embora ele vista os santos com a dupla justiça, como
que de uma roupa forrada de peles, contudo, se vê obrigado a confessar que ninguém
agrada a Deus sem a remissão dos pecados. Se isso é verdade, que ele conceda
ao menos que são contados por justos, segundo, como dizem, o quinhão assegurado
da imputação, aqueles que não o são de fato. Contudo, até onde parcelará o pecador
esta aceitação graciosa, que é posta em lugar da justiça? Porventura por libra ou por
onça? Certamente penderá incerta e vacilante, para esta e para aquela parte, porquanto
não lhe será possível tomar para si quanto de justiça será necessário para
confiança inabalável. Ainda bem que não é o árbitro desta causa esse que gostaria
de prescrever lei a Deus!
Mas isto permanecerá firme: “Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças
quando fores julgado” [Sl 51.4]. De quão grande arrogância, porém, é condenar ao
Juiz Supremo quando ele absolve graciosamente, como se não vigorasse esta sua
resposta: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia!” [Ex 33.19]. E, no
entanto, a intercessão de Moisés que Deus conteve com essa afirmação não visava a
que não perdoaria a ninguém, mas, ao contrário, que, abolida a condenação, absolve a
todos igualmente, ainda que fossem passíveis de culpa. E por isso podemos nós com
certeza dizer que, sepultados os pecados, os perdidos estão justificados diante de Deus,
porque, como ele abomina o pecado, não pode amar senão aqueles a quem justifica.
Mas, eis um maravilhoso modo de justificar: que, cobertos com a justiça de Cristo,
não tremam ante o juízo de que são merecedores, e enquanto com razão a si mesmos
se condenam, sejam tidos por justos fora de si mesmos.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32