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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A DOUTRINA DA JUSTIÇA ESSENCIAL SUSTENTADA POR OSIANDRO NÃO SÓ OBSCURECE A DISTINÇÃO DE JUSTIFICAÇÃO SANTIFICAÇÃO, MAS TAMBÉM FRUSTRA A PRÓPRIA NATUREZA DA SALVAÇÃO

Entretanto, maior veneno está latente no segundo item, onde ele ensina que somos justos em conjunção com Deus. Julgo haver já provado suficientemente que, embora esta doutrina não fosse tão nociva, contudo, visto que ela é frígida e débil, e se dissipa em sua própria fatuidade, com razão deve ser insípida aos leitores judiciosos e pios. É uma impiedade intolerável querer destruir a confiança de nossa salvação sob o pretexto da dupla justiça, a qual esse demente quis forjar e querer-nos fazer caminhar pelas nuvens para separar-nos da tranqüilidade de nossa consciência, que se apoia na morte de Jesus Cristo, impedindo-nos de invocar a Deus com ânimo tranqüilo e confiante. Ri-se Osiandro daqueles que ensinam que ser justificado é um termo forense, pois insiste que nos é necessário ser justos. Também nada mais o abomina do que sermos justificados por imputação gratuita. Mas, se Deus não nos justifica nos absolvendo e perdoando, o que quer dizer esta afirmação de Paulo: “Deus estava em Crista reconciliando consigo o mundo, não imputando aos homens seus pecados”, pois “Aquele que não havia cometido pecado, ele o fez pecado por nós, para que nele fôssemos justiça de Deus”? [2Co 5.19, 21]. Antes de tudo, obtenho disso que considerados justos são aqueles que são reconciliados com Deus, e em seguida se insere o modo dessa reconciliação: que Deus justifica perdoando, assim como em outro lugar se contrasta justificação com acusação, antítese que demonstra claramente que essa locução – ser justificado – foi tomada do uso forense. Certamente que, qualquer pessoa que é medianamente versada na língua hebraica verá que tal expressão é tomada daí e qual é seu verdadeiro alcance.
Agora, porém, que Osiandro me responda: quando Paulo diz que justiça sem obras é descrita por Davi nestas palavras: “Bem-aventurados aqueles cujas iniqüidades foram perdoadas” [Rm 4.7; Sl 32.1], porventura esta definição é plena, ou só pela metade? Certamente que Paulo não evoca o Profeta por testemunha, como se estivesse ensinando que o perdão dos pecados é parte da justiça ou concorre para justificar o homem; pelo contrário, encerra toda a justiça na remissão gratuita, pronunciando ser bem-aventurado o homem cujos pecados foram cobertos, a quem Deus perdoouas iniqüidades e a quem não imputa as transgressões, e disso depende toda sua felicidade, pois que essa pessoa não é inerentemente justa, mas o é por imputação. Osiandro objeta dizendo que tal coisa seria insultuosa a Deus e contrária à sua natureza, pois que justifica os que de fato permanecem ímpios. Com efeito, é preciso ter em mente o que eu já disse: que a graça de justificar não se separa da regeneração, visto que são coisas distintas. No entanto, uma vez que, mediante a experiência, é mais do que suficientemente notório que nos justos sempre perduram remanescentes do pecado, eles são, necessariamente, justificados de maneira muito diferente da que são regenerados para a novidade de vida. Pois Deus assim inicia este segundo processo em seus eleitos, e nele progride paulatinamente, e por vezes lentamente, por todo o decurso da vida, de modo que estão sempre sujeitos à sentença de morte diante de seu tribunal. Ele os justifica, porém, não parcialmente, mas de modo tal que, como que vestidos da pureza de Cristo, possam apresentar-se livremente nos céus. Porque uma parte de justiça não apaziguaria a consciência, enquanto não estivéssemos seguros de que agradamos a Deus, por isso somos justos diante dele sem restrição.158 Donde se segue que a doutrina da justificação é transtornada e abatida até os alicerces, quando se infunde dúvida às almas, abalada é a confiança da salvação, a livre e animosa invocação de Deus sofre empecilho, ainda pior, não se estabelece firmemente a paz e tranqüilidade com alegria espiritual. E esta é a razão por que Paulo argumenta das coisas contrárias, para demonstrar que a herança não provém da lei[Gl 3.18], já que, se dependesse das obras, ela seria destituída de valor, visto que nem o mais santo acharia nela razão para se gloriar. Esta distinção entre justificar e regenerar, a qual Osiandro, confundindo a ambos, chama de dupla justiça, é eloqüentemente expressa por Paulo, pois, falando de sua real justiça, ou da integridade de que fora dotado, à qual Osiandro impõe o título de justiça essencial, exclama amargamente: “Miserável sou eu! Quem me livrará do corpo desta morte?” [Rm 7.24]. Refugiando-se, porém, na justiça que se fundamenta unicamente na misericórdia de Deus, gloria-se ufanosamente, na vida, na morte, nos ultrajes, na penúria, na espada e em todas as coisas adversas: “Quem formulará acusação contra os eleitos de Deus, a quem ele próprio justifica? Pois estou seguramente persuadido de que nada nos separará de seu amor em Cristo” [Rm 8.33, 38, 39]. Proclama claramente possuir a justiça que é plenamente suficiente é para a salvação diante de Deus; de tal maneira que aquela mísera servidão, por cuja causa pouco antes deplorava sua sorte, por ser dela cônscio, em nada suprime a confiança de gloriar-se, nem lhe serve de empecilho para conseguir seu intento. Esta diversidade é suficientemente conhecida e particularmente familiar a todos os santos, que gemem sob o fardo de suas iniqüidades, e contudo com vitoriosa confiança sobrepujam a todos os temores. Quanto ao que Osiandro objeta, de que isso não é próprio da natureza de Deus, se volta contra ele; porquanto, embora ele vista os santos com a dupla justiça, como que de uma roupa forrada de peles, contudo, se vê obrigado a confessar que ninguém agrada a Deus sem a remissão dos pecados. Se isso é verdade, que ele conceda ao menos que são contados por justos, segundo, como dizem, o quinhão assegurado da imputação, aqueles que não o são de fato. Contudo, até onde parcelará o pecador esta aceitação graciosa, que é posta em lugar da justiça? Porventura por libra ou por onça? Certamente penderá incerta e vacilante, para esta e para aquela parte, porquanto não lhe será possível tomar para si quanto de justiça será necessário para confiança inabalável. Ainda bem que não é o árbitro desta causa esse que gostaria de prescrever lei a Deus! Mas isto permanecerá firme: “Para que sejas justificado em tuas palavras, e venças quando fores julgado” [Sl 51.4]. De quão grande arrogância, porém, é condenar ao Juiz Supremo quando ele absolve graciosamente, como se não vigorasse esta sua resposta: “Terei misericórdia de quem eu quiser ter misericórdia!” [Ex 33.19]. E, no entanto, a intercessão de Moisés que Deus conteve com essa afirmação não visava a que não perdoaria a ninguém, mas, ao contrário, que, abolida a condenação, absolve a todos igualmente, ainda que fossem passíveis de culpa. E por isso podemos nós com certeza dizer que, sepultados os pecados, os perdidos estão justificados diante de Deus, porque, como ele abomina o pecado, não pode amar senão aqueles a quem justifica. Mas, eis um maravilhoso modo de justificar: que, cobertos com a justiça de Cristo, não tremam ante o juízo de que são merecedores, e enquanto com razão a si mesmos se condenam, sejam tidos por justos fora de si mesmos.

João Calvino