O que Osiandro objeta, dizendo que o poder de justificar não reside na propriamente
dita, mas até onde Cristo é recebido, de bom grado o admito. Ora, se a fé por
si mesma justificasse, ou, como dizem, por virtude intrínseca, já que ela é sempre
débil e imperfeita, isso ela não efetuaria senão em parte. Desse modo, a justiça seria
deficiente, a qual nos conferiria só reduzida porção de salvação. Com efeito, não
conseguimos imaginar tal coisa; pelo contrário, propriamente falando, dizemos que
só Deus justifica; então transferimos isso mesmo a Cristo, visto que ele nos foi dado
por justiça. A fé, realmente, a comparamos como a um vaso, porque, salvo se, ao
buscar a graça de Cristo, nos achegamos a ele vazios, com a boca da alma aberta,
jamais seremos capazes dele. Donde se conclui que não subtraímos a Cristo o poder
de justificar enquanto ensinamos que é mediante a fé que ele é recebido antes de
recebermos sua justiça.
Entretanto, nesse meio tempo, não estou admitindo as figuras tortuosas desse
sofista, quando diz que “a fé é Cristo”, como se na verdade um pote de barro fosse
um tesouro, porque há ouro guardado nele. Ora, nem é diverso o arrazoado de que a
fé, embora inerentemente não tenha nenhuma dignidade, ou nenhum valor, nos justifica
ao nos prover Cristo, assim como um pote cheio de dinheiro torna rico o homem
que o encontre. Portanto, afirmo que a fé é misturada insipientemente com
Cristo, a qual é apenas o instrumento de apropriar-se a justiça, visto que ele é a
causa material e, a um só tempo, o Autor e Ministro de tão grande beneficio. Já
resolvemos também este problema de como se deva entender a palavra fé, onde se
trata da justificação.
João Calvino