Em referência ao modo de recebimento de Cristo, Osiandro vai ainda mais longe,
a saber, que a Palavra interior é recebida pela ministério da Palavra exterior,
mediante o qual somos transportados do sacerdócio de Cristo e da pessoa do Mediador
à sua eterna divindade. Quanto a nós, certamente não dividimos a Cristo; ao
contrário, confessamos que Aquele mesmo que nos reconcilia com o Pai em sua
carne, e nos dotou de justiça, é a eterna Palavra de Deus, e reiteramos que ele não
podia haver cumprido de outra forma as funções de Mediador, e assim adquirir-nos
a justiça, a não ser que ele fosse o Deus eterno. Mas temos aqui o parecer de Osiandro:
uma vez que Cristo é Deus e homem, ele se fez nossa justiça em relação à
natureza divina, não à humana. Entretanto, se isso é próprio da divindade, então não
será peculiar a Cristo; pelo contrário, sendo comum com o Pai e o Espírito, a justiça
de um não é diferente da justiça dos outros dois. Além disso, não seria correto dizer que o que existiu naturalmente, desde toda a eternidade, foi feito. Mas ainda que
concordemos que Deus foi feito nossa justiça, como harmonizar isso com o que diz
Paulo: que Deus fez a Cristo nossa justiça (1Co 1.30)?155 Seguramente que isto é
peculiar à pessoa do Mediador, a qual, ainda que em si contenha a natureza divina,
aqui, contudo, é assinalada de título próprio, mercê do qual Cristo é reconhecido
distintamente do Pai e do Espírito.
Nesciamente, de fato canta triunfo Osiandro em uma palavra de Jeremias, onde
promete que o Senhor haverá de ser nossa justiça [Jr 23.6; 33.16; 51.10]. Com efeito,
daí ele nada mais poderá deduzir senão que Cristo, que é nossa justiça, é Deus
manifesto na carne [1Tm 3.16]. Em outro lugar, indicamos do sermão de Paulo que
“Deus adquiriu para si a Igreja com seu sangue” [At 20.28]. Se alguém inferir daí
que o sangue pelo qual foram expiados os pecados é divino e parte da própria
natureza divina, quem haverá de tolerar erro tão grosseiro?
Entretanto, Osiandro pensa que conseguiu tudo pelo uso dessa sutileza tão pueril,
e se incha, exulta e enche muitas páginas de seus termos empolados, quando, no
entanto, a solução é simples e expedita, a saber, que de fato o Senhor, quando viesse
a tornar-se descendência de Davi, haveria de ser a justiça dos piedosos; sentido no
qual o ensina Isaías: “Pelo conhecimento de si meu servo, o justo, justificará a
muitos” [Is 53.11]. Notemos que quem está falando é o Pai, o qual atribui ao Filho o
papel de justificar, que adiciona a causa: para que seja justo; que o modo ou meio,
como dizem, o situa no ensino mercê do qual Cristo é conhecido. Ora, mais pertinente
é tomar o termo daath [hebraico tx^D^ – conhecer ou conhecimento] em acepção
passiva.
Isto posto, concluo primeiramente que Cristo se fez nossa justiça quando “se
revestiu da forma de servo” [Fp 2.7]; segundo, que ele nos justifica no fato de que se
mostrou obediente ao Pai [Fp 2.8]; e daí ele nos faz isso não em função da natureza
divina, mas em razão da dispensação a si atribuída. Pois ainda que só Deus seja a
fonte da justiça, não somos justos de outra forma senão por sua participação; no
entanto, visto que fomos alienados de sua justiça por um infeliz dissídio, nos é
necessário descer a este remédio inferior: que Cristo nos justifica pelo poder de sua
morte e ressurreição.
João Calvino
Escola Bíblica Conhecedores da verdade - O objetivo deste blog e levar você a conhecer a verdade que liberta de todo o Engano. Nesses últimos tempos, muito se tem ouvido falar do evangelho de nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo, porém de maneira distorcida e muitas vezes pervertida, com heresias disfarçada etc. “ ...e conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.” João 8.32