AS BENESSES DESTA VIDA, QUANDO POLARIZADA COM A VENTUROSA VIDA
FUTURA, DEVEM SER USADAS SEM PARCIMÔNIA EXTREMADA, NEM PRÓDIGA
INCONTENÇÃO
Mercê de tais noções básicas, a Escritura ao mesmo tempo nos ensina devidamente
qual é o uso correto dos bensterrenos, coisa mui longe de desprezar-se no regular
nossa maneira de viver. Ora, se é preciso viver, também é preciso usar os recursos
necessários à vida, tampouco podemos também furtar-nos àquelas coisas que parecem
servir mais ao prazer que à necessidade. Portanto, é preciso observar justa
medida, de sorte que, seja para necessidade, seja para deleite, que os usemos com
uma consciência pura. Essa medida é prescrita pelo Senhor em sua Palavra, quando
ensina que a presente vida é para os seus uma como que peregrinação, pela qual
estão marchando para o reino celestial [Lv 25.23; 1Cr 29.15; Sl 39.12; 119.19; Hb
11.8-10, 13-16; 13.14]. Se pela terra apenas transitamos de passagem, sem dúvida
enquanto aqui devemos fazer uso desses bens, os quais nos ajudam, em vez de nos
embaraçar a passagem.146 Por isso, não é sem razão que Paulo persuade dizendo que
se deve usar deste mundo de modo que é como se dele não usássemos, e que se
devem adquirir as posses com a mesma disposição de ânimo com que são vendidas
[1Co 7.30, 31]. Contudo, visto que ser esta situação escorregadia e se inclina ao erro
para com um e outro desses dois extremos, esforcemo-nos por firmar bem o máximo
possível e com toda segurança.
Ora, alguns dos homens tidos por bons e santos, como vissem que a imoderação
e a suntuosidade haviam se alastrado ininterruptamente em desenfreado desregramento,
a menos que fossem contidasmais drasticamente, porém desejavam corrigir
tão pernicioso mal, a única fórmula que lhes ocorreu foi esta: permitiram que o
homem usasse das coisas materiais até onde a necessidade se impusesse. Sem dúvida
um parecer piedoso esse, porém foram rígidos demais, pois aguilhoaram as consciências
com laços mais apertados do que aqueles de que seriam estreitados pela
Palavra do Senhor, o que é muito perigoso. Com efeito, afirmam que agimos conforme a necessidade quando nos abstemos de todas aquelas coisas sem as quais podemos
viver.147 Desse modo, segundo eles, mal se permitiria acrescentar algo mais que
simples pão e água! De outros, a austeridade é ainda maior, à qual se menciona
Crates, o tebano, que lançou ao mar suas posses porque pensava que, a não ser que
elas perecessem, ele cria que elas o fariam perdido.
Entretanto, muitos hoje, enquanto buscam pretexto para que justifiquem a imoderação
da carne no uso das coisas externas, enquanto isso buscam aplanar o caminho
ao que comete excessos, assumem como reconhecido o que de modo algum
lhes concedo, a saber, que esta liberdade não deve ser restringida por nenhuma
moderação, ao contrário, deve deixar à consciência de cada um que faça ele uso de
tudo o que lhe é permitido. Sem dúvida, reconheço que as consciências aqui não
devem, nem podem ser obrigadas por fórmulas de leis fixas e precisas; contudo,
uma vez que a Escritura ensina regras gerais sobre seu uso legítimo, por certo que
ele nos deve ser limitado de acordo com elas.
João Calvino