Total de visualizações de página

segunda-feira, 10 de setembro de 2018

PRINCÍPIO CORRETO NO USO DAS COISAS É SERVIR-SE DELAS CONFORME O FIM E NA MEDIDA A QUE SE DESTINAM, SEGUNDO A NECESSIDADE QUE SE TENHA E O DELEITE QUE PROPORCIONAM

Seja-nos este o principio: não exagerar o uso dos dons de Deus quando se tem por meta que os mesmos foram criados e destinados a nós pelo próprio Criador, visto que os criou para nosso beneficio, não para nosso detrimento. Por isso, ninguém manterá caminho mais reto do que aquele que diligentemente visualizar esse propósito. Ora, se ponderarmos a que fim Deus criou os alimentos, verificaremos que ele quis levar em conta não só a necessidade, mas também o deleite e gáudio; assim, na indumentária, além da necessidade, foi seu propósito fomentar o decoro e a dignidade; nas ervas, árvores e frutas, além dos variados usos, proporciona a beleza da aparência e a suavidade do perfume. Ora, a não ser que isso fosse verdadeiro, o Profeta não contaria entre as beneficências de Deus “o vinho que alegra o coração do homem”, “o óleo lhe faz resplandecer o rosto” [Sl 104.15]; nem estariam as Escrituras, a fim de enaltecer-lhe a benignidade, relembrando a cada passo que ele deu aos homens todas as coisas desse gênero. E as próprias qualidades naturais das coisas demonstram suficientemente a que propósito e em que extensão é lícito desfrutarmos delas. Porventura o Senhor terá dado às flores tão grande formosura que surgem espontaneamente aos alhos, tão grande suavidade do olor que naturalmente se infiltrasse ao olfato, e será ilícito que aqueles sejam afetados pela beleza, ou este pelo encanto do aroma? Ora, porventura Deus não terá assim distinguido as cores, que a umas fizesse mais aprazíveis que as outras? Ou porventura Deus não terá atribuído ao ouro e à prata, ao marfim e ao mármore um fascínio mercê do qual se tornassem preciosos acima de outros, quer metais, quer pedras? Em suma, porventura Deus não nos terá feito muitas coisas dignas de apreço à parte de seu uso necessário?

João Calvino