Contudo, visto que Osiandro introduziu não sei que monstro de uma justiça essencial, mediante o qual, embora não quisesse abolir a justiça graciosa, todavia a
envolveu deste nevoeiro, que priva as mentes pias, assim entenebrecidas do sério
senso da graça de Cristo, impõe-me refutar esse desvario antes de passar a outras
considerações.
Em primeiro lugar, esta especulação é de pura e gratuita curiosidade. De fato,
ele amontoa muitos testemunhos da Escritura com os quais tenta provar que Cristo
é um conosco, e nós, de nossa parte, um com ele, o que dispensa qualquer prova.
Entretanto, visto que ele não observa o vínculo desta unidade, é evidente que a si
próprio se emaranha. A nós, porém, que sustentamos que somos unidos com Cristo
pelo secreto poder de seu Espírito, nos é fácil desvencilhar de todas as suas laçadas.
Esse homem, como desejasse muito transferir para os homens a essência de Deus,
acabou concebendo algo parecido com o erro dos maniqueus. Daqui, outra ficção
sua, a saber, que Adão fora formado à imagem de Deus porque já antes da queda
Cristo fora destinado a ser o protótipo da natureza humana. No entanto, uma vez
que estou buscando ser breve, me limitarei à matéria em pauta.
Diz ele que somos um com Cristo. Estamos de pleno acordo. Negamos, entretanto,
que a essência de Cristo se misture com a nossa. Então, dizemos que erroneamente
se aplica a essas suas imposturas este princípio: que Cristo é nossa justiça
porque ele é o Deus eterno, a fonte da justiça e a própria justiça de Deus. Que os
leitores me perdoem se agora toco levemente os pontos que reservo para tratá-los
mais amplamente em outro lugar, de acordo com a ordem da exposição. Mas,
ainda que se escuse de que com a expressão justiça essencial outra coisa não intenta
senão que vá ao encontro desta proposição – que somos reputados justos em
atenção a Cristo –, no entanto exprime claramente que, não contente com essa justiça
que nos foi adquirida pela obediência e pelo sacrifício da morte de Cristo, imagina
que somos substancialmente justos em Deus, seja por sua essência, seja por
sua qualidade infusa.
Ora, esta é a razão por que contende tão veementemente que não somente Cristo
habita em nós, mas também o Pai e o Espírito, o que, embora eu confesse ser verdadeiro,
entretanto afirmo que ele torce isso perversamente. Pois ele deveria ter ponderado
cuidadosamente o modo dessa habitação, isto é, que o Pai e o Espírito estão
em Cristo; e assim como “nele habita a plenitude da divindade” [Cl 2.9], igualmente
possuímos nele Deus em sua inteireza. Daí, tudo quanto disse do Pai e do Espírito,
separadamente de Cristo, outra coisa não pretende senão separar de Cristo as pessoas
simples.
Então, introduz uma associação de substânciasmediante a qual, transferindo-se
para nós, Deus faz de nós parte de sua pessoa. Ora, pelo fato de pelo poder do
Espírito Santo sermos unidos com Cristo e de ser ele nossa cabeça e nós seus membros,
por pouco ele nos mistura com sua essência.153 Mas, sobretudo, ao manter que
a justiça que possuímos é a do Pai e do Espírito, segundo sua divindade, descobre
mais claramente seu pensamento, a saber, que não somos justificados exclusivamente
pela graça do Mediador, e que a justiça não nos é oferecida simples e plenamente
em sua Pessoa, mas que somos feitos participantes da justiça divina quando
Deus se faz essencialmente uma só coisa conosco.
João Calvino