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quinta-feira, 13 de setembro de 2018

GLORIAR-NOS EM NOSSA JUSTIÇA É DEPRECIAR A GLÓRIA DE DEUS NA JUSTIFICAÇÃO DO PECADOR

De fato é assim: nunca nos gloriamos verdadeiramente nele, a menos que tenhamos nos abdicado totalmente de nossa própria glória. Em contraposição a isto, precisa-se sustentar o princípio universal de que se gloriam contra Deus todos quantos se gloriam em si mesmos. Pois Paulo, afinal, julga que assim o mundo se torna sujeito a Deus quando é inteiramente removida aos homens qualquer razão de se gloriarem [Rm 3.19]. Portanto, quando Isaías anuncia que a justificação de Israel estaria em Deus, ao mesmo tempo acrescenta também o louvor [Is 45.25], como se estivesse dizendo que para este fim os eleitos foram justificados pelo Senhor: para que nele, não em outro, se gloriassem. Como, porém, convém que sejamos exaltados no Senhor, ele ensina isto no verso precedente: que juremos estarem no Senhor nossas justiças e nossas fortalezas [Is 45.24]. Observa ainda que não se exige uma mera confissão; pelo contrário, uma confissão confirmada com juramento, para que não se conclua que se possa cumprir por algum gênero de humildade fingida.186 E que ninguém replique que não se gloria quando, deixando de lado toda a arrogância, reconhece sua própria justiça; porque não pode haver tal estimativa sem que gere autoconfiança, nem autoconfiança que não produza autoglorificação. Lembremo-nos, portanto, de que em toda discussão sobre a justiça deve-se visar a este fim: que o louvor dessa justiça permaneça perfeito e inteiro para o Senhor; uma vez que, como o atesta o Apóstolo, ele derramou sua graça em nós para manifestação de sua justiça, de sorte que seja “ele justo e justificador daquele que tem fé em Jesus[Rm 3.26]. Daí dizer-se em outro lugar, quando ensinara que o Senhor nos conferira a salvação para que manifestasse a glória de seu nome [Ef 1.6], como que repetindo o mesmo, acrescenta depois: “Porque pela graça sois salvos por meio da fé; e isto não vem de vós, para que ninguém se glorie” [Ef 2.8, 9]. E Pedro, quando reitera que fomos chamados à esperança da salvação, “para que declaremos as excelências daquele que nos chamou das trevas para sua admirável luz” [1Pe 2.9], ele quer que ressoem inconfundivelmente aos ouvidos dos fiéis unicamente os louvores de Deus, para que sufoquem em profundo silêncio toda a arrogância da carne. A síntese é esta: o homem não pode reivindicar para si, sem sacrilégio, a mínima migalha de justiça, pois na mesma medida se tira e se subtrai da glória da justiça divina.

João Calvino