O HOMEM NATURAL OU NÃO-REGENERADO É COMPLETAMENTE SATURADO
DE CORRUPÇÃO, JUNTAMENTE COM SUAS OBRAS, À VISTA DE DEUS
Para que mais elucidada se faça a matéria, examinemos de que natureza seja a
justiça do homem em todo o decurso da vida. Para isso, estabeleçamos uma quádrupla
gradação. Ora, os homens, ou não são dotados de nenhum conhecimento de
Deus e foram submersos na idolatria, ou são iniciados nos sacramentos, negando a
Deus na impureza da vida por suas ações, a quem confessam com a boca, contudo,
são de Cristo somente em nome; ou são hipócritas, cobrindo a impiedade do coração
pelo uso de vãos disfarces, ou são regenerados pelo Espírito de Deus e se aplicam à
verdadeira santidade.
Quanto à primeira dessas classes, quando têm de ser julgados em seus dotes
naturais, do alto da cabeça até a planta dos pés não se achará neles uma centelha de
bem, salvo, talvez, se quisermos acusar de falsidade a Escritura, quando recomenda
a todos os filhos de Adão com estas qualificações: que “são de coração perverso e
contumaz” [Jr 17.9]; que “toda imaginação de seu coração é má desde os primeiros
anos” [Gn 8.21]; que “seus pensamentos são fúteis” [Sl 94.11]; que “não têm diante
dos olhos o temor de Deus” [Sl 36.1]; que “nenhum deles tem entendimento nem
busca a Deus” [Sl 14.2; 53.2]. Em suma, que são carne [Gn 6.3], termo pelo qual se
compreendem todas essas obras que são enumeradas por Paulo: “fornicação, impureza,
impudicícia, licenciosidade, culto de ídolos, feitiçarias, inimizades, contendas,
rivalidades, iras, rixas, dissensões, facções, invejas, homicídios” – e tudo quanto
de torpeza e abominação se pode imaginar [Gl 5.19-21]. Esta é, com efeito, a
dignidade em cuja confiança podem ensoberbecer-se.
Ora, se alguns entre eles excelem por essa honradez de costumes que tenha
alguma aparência de santidade entre os homens, entretanto, visto que sabemos que
Deus não se detém no esplendor externo, necessário se faz penetrar até à própria
fonte das obras, caso queiramos que elas valham algo para a justiça. Digo que se faz
necessário olhar interiormente de que sentimento do coração procedem essas obras.
Mas, ainda que aqui tenhamos vastíssimocampo de discussão, no entanto, visto que
a matéria pode ser explicada em bem poucas palavras, serei o mais breve possível
em sua ministração.
João Calvino