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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

NÃO HÁ POR QUE TEMER A MORTE; AO CONTRÁRIO, ANTE A GLÓRIA DA VIDA FUTURA, ELA DEVE SER ACOLHIDA COM VÍVIDA EXPECTATIVA, EM VISTA DA REDENÇÃO QUE NOS AGUARDA

Isto, contudo, se assemelha a monstruosidade, a saber, que há muitos que se jactam de ser cristãos, em lugar desse anseio da morte, são possuídos de tão grande pavor que lhe estremeçam a qualquer menção, como se de coisa absolutamente funesta e infeliz. Por certo que não é de admirar, se o sentimento natural em nós se encha de horror à mera menção de nossa dissolução. Mas de modo algum se deve suportar isto: que não haja em um coração cristão luz de piedade que sobrepuje de maior consolação e suprima esse temor, seja qual for sua natureza. Ora, se refletirmos que este tabernáculo instável, achacado, corruptível, efêmero, macilento, flácido, de nosso corpo é por isto dissolvido: para que seja dentro em pouco renovado a uma glória firme, perfeita, incorruptível, celeste, afinal a fé porventura não compelirá ardentemente a buscar aquilo de que natureza se arreceia? Se refletirmos que pela morte somos arrebatados do exílio para habitarmos a pátria, e pátria celestial, porventura não derivaremos daí nada de consolação? No entanto, se ponderará que nada há que não almeje continuar a existir. Estou de pleno acordo, e por isso contendo que nos é necessário atentar para a imortalidade futura, onde se depare condição estabilizada que na terra jamais se evidencia. Ora, Paulo ensina, com muito acerto, que os fiéis avançam jubilosamente para a morte, não porque queiram ser desvestidos, mas porque desejam ser supervestidos [2Co 5.2, 3]. Os animais brutos, as próprias criaturas insensíveis, e até as madeiras e as pedras têm como que um certo sentimento de sua futilidade e corrupção, e estão esperando o dia da ressurreição para ver-se livres de sua futilidade juntamente com os filhos de Deus143 [Rm 8.19-21]. Nós, porém, somos não só dotados da luz do entendimento, mas até e acima do entendimento iluminados pelo Espírito de Deus, quando se trata de nossa essência, não elevaremos a mentepara além dessa podridão da terra? No entanto, não meu tratar aqui de uma perversidade tão grande. No início já declarei que eu aqui eu desejaria empreender bem pouco, como em outros lugares fiz de maneira mais pormenorizada. Aconselharia as mentes mais tímidas que lessem a opúsculo De Mortalitate [Da Mortalidade] de Cipriano, a não ser que fossem dignos de que se relegassem aos filósofos, para que, observado o desprezo da morte que eles exibem, comecem a envergonhar-se. Contudo, tenhamos isto estabelecido: ninguém terá progredido bem na escola de Cristo senão aquele que aguarde com regozijo o dia da morte e da ressurreição final. Ora, Paulo descreve com esta marca não só todos os fiéis [2Tm 4.8; Tt 2.13], mas é também um procedimento habitual da Escritura lembrar-nos desse elemento sempre que pretende mencionar prova de sólida exultação. “Exultai”, diz o Senhor, “e erguei vossas cabeças, pois vossa redenção se aproxima” [Lc 21.28]. Porventura é razoável, indago eu, que aquilo que ele quis que valesse tanto para excitar em nós a exultação e a alegria, nada produza senão tristeza e consternação? Se assim é, por que ainda nos gloriamos nele como nosso Mestre? Demos, pois, guarida a uma mente mais saudável, e ainda que o cego e bronco desejo da carne lhe oponha resistência, não hesitemos em esperar a vinda do Senhor não só com anseio, mas também com gemidos e suspiros, como sendo de todas a causa mais faustosa. Pois ele nos virá como Redentor, para que, arrebatados deste imenso abismo de tantos males e misérias, nos introduz naquela bem-aventurada herança da vida e de sua glória.

João Calvino