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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

A VIDA PRESENTE, À QUAL NOS CUMPRE ACOMODAR-NOS, LONGE ESTÁ DE COMPARAR-SE À VIDA FUTURA, BEM-AVENTURADA E ETERNA, A QUAL SE DEVE SEMPRE BUSCAR

Ora, todo amor desordenado da vida que experimentamos deve adicionar-se ao desejo de uma vida melhor. Admito que quem tem pensado que nosso sumo bem é não haver nascido, e portanto se deve morrer o quanto antes, tem tido um excelente parecer em conformidade com o senso humano.142 Com efeito, destituídos da luz de Deus e da verdadeira religião, que podiam neste mundo que não fosse escuro e abominável? Não sem razão procederam aqueles que celebravam os dias de nascimentodos seus com tristeza e lágrimas, enquanto os funerais com regozijo solene. Faziam isso, porém, sem proveito, porque, privados da reta instrução da fé, não viam como possa redundar em bem aos piedosos o que de si não é ditoso, nem desejável. Por isso findavam seu juízo em desespero. Que seja este, portanto, o escopo dos fiéis ao ajuizar desta vida mortal, a qual, enquanto entendem nada ser em si senão miséria, para mais animosos e mais expeditos se entreguem por inteiro à meditação dessa vida futura e eterna. Quando se chega a esta comparação, então de fato aquela pode não apenas ser tranqüilamente negligenciada, mas diante desta pode ser totalmente desprezada e desdenhada. Ora, se o céu é nossa pátria, que outra coisa é a terra senão um lugar de exílio? Se a migração deste mundo é a entrada na vida, que outra coisa é o mundo senão um sepulcro? Permanecer nele, que outra coisa é senão estar mergulhado na morte? Se ser libertado do corpo é ser lançado à perfeita liberdade, que outra coisa é o corpo senão um cárcere? Se fruir da presença de Deus é a suprema síntese da felicidade, porventura não é miserando carecer dela? Com efeito, até que nos tenhamos evadido do mundo, peregrinamos longe do Senhor [2Co 5.6].
Portanto, se a vida celestial for comparada à terrena, não há dúvida de que seja incontestavelmente não apenas desprezível, mas até mesmo digna de ser calcada aos pés. Por certo que nunca deve ser tida em ódio, senão até onde ela nos mantêm sujeitos ao pecado; aliás, esse ódio nem deve voltar-se propriamente contra ela. Seja como for, convêm, entretanto, de tal modo devemos deixar-nos afetar por ela, seja de enfado, seja de insatisfação, que, desejando-lhe o fim, também estejamos predispostos a permanecer nela ao arbítrio de Deus, em termos tais que de fato nosso enfado esteja longe de toda murmuração e impaciência. Ora, a vida terrenal é semelhante a um posto de guarnição militar em que o Senhor nos colocou, para que o conservemos por todo tempo até que ele nos chame de volta. Na verdade, Paulo deplora sua sorte por ser mantido ligado pelos laços do corpo por mais tempo do que seu desejo, e suspira com ardente anseio de redenção [Rm 7.24]; contudo, a fim de obedecer ao imperativo de Deus, confessava-se estar pronto para uma e outra coisa [Fp 1.23, 24], visto que reconhece que isto se devia a Deus: que glorifique seu nome, seja pela morte, seja pela vida [Rm 14.8], mas a ele cabe decidir o que melhor lhe convenha à glória. Conseqüentemente, se nos é necessário viver e morrer para o Senhor, deixemos a seu arbítrio o limite de nossa morte e de nossa vida, de modo, porém, que não só nos abrasemos em seu anseio, mas também sejamos constantes em sua meditação. Todavia, ante a imortalidade futura, desprezemos esta vida e, em vista da servidão do pecado, escolhamos a ela renunciar, sempre que ao Senhor agradar mais.

João Calvino