Contudo, para que não tropecemos no próprio limiar, o que aconteceria se entrássemos
em uma discussão acerca de coisa desconhecida, expliquemos primeiramente
que significam estas expressões: o homem é justificado diante de Deus e a
justificação é pela fé ou pelas obras.
Lemos que justificado diante de Deus é aquele que, ao juízo de Deus, não só é
considerado justo, mas que também foi aceito em razão de sua justiça, porque, como
a iniqüidade é abominável à vista de Deus, assim o pecador não pode achar graça a
seus olhos, na qualidade de pecador e por quanto tempo for tido como tal. Conseqüentemente,
onde quer que haja pecado, aí também se manifesta a ira e vingança
de Deus. Portanto, justificado é aquele que não é tido na conta de pecador, mas de
justo, e por esse titulo se posta firme diante do tribunal de Deus, onde todos os
pecadores se prostram abatidos. Da mesma forma, se um inocente acusado for levado
perante o tribunal de um juiz imparcial, depois de ser julgado segundo sua inocência,
se diz que foi justificado diante do juiz; assim é justificado diante de Deus
aquele que, excluído do número dos pecadores, tem a Deus por testemunha e arauto
de sua justiça.
Portanto, por isso se dirá ser justificado pelas obras aquele em cuja vida se
haverá de achar essa pureza e santidade que mereça o testemunho de justiça ante o
trono de Deus, ou aquele que, em razão da integridade de suas obras, possa responder
e satisfazer-lhe ao juízo. Em contraposição, será justificado pela fé aquele que,
excluído da justiça das obras, apreende pela fé a justiça de Cristo, revestido da qual
aparece perante Deus não como pecador, mas, pelo contrário, como justo. Portanto,
interpretamos a justificação simplesmente como a aceitação mercê da qual, recebidos
à sua graça, Deus nos tem por justos. E dizemos que ela consiste na remissão
dos pecados e na imputação da justiça de Cristo.
João Calvino