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segunda-feira, 10 de setembro de 2018

DA JUSTIFICAÇÃO PELA FÉ, E, PRIMEIRAMENTE, DA PRÓPRIA DEFINIÇÃO DO TERMO E DA MATÉRIA

NECESSIDADE E IMPORTÂNCIA DE UMA EXPOSIÇÃO COMPLETA DA DOUTRINA DA JUSTIFICAÇÃO

Parece-me haver já exposto acima com bastante prudência como aos homens resta o único recurso de recuperar-se da maldição da lei pela fé na salvação. Também, por outro lado, o que é a fé, que benefícios ela confere ao homem de Deus e quais frutos nele produz. Mas esta é a suma do que foi dito: que Cristo, que nos foi dado pela benignidade de Deus, nos é apreendido e possuído pela fé, mercê de cuja participação recebemos acima de tudo dupla raça, a saber, primeiro que, reconciliados com Deus por sua inculpabilidade, já temos nos céus em vez de um Juiz, um Pai propício; então que, santificados por seu Espírito, exercitamos inocência e pureza de vida,; e da regeneração, com efeito, que é a segunda graça dessas duas, já foi dito o que me parecia ser suficiente. O tema da justificação foi por isso abordado mais ligeiramente, porque era mais relevante ao caso primeiro compreender não somente quanto a fé, pela qual unicamente, mercê da misericórdia de Deus, obtemos a justiça graciosa, não é improdutiva de boas obras, mas também de que natureza são as boas obras dos santos, acerca das quais versa parte desta questão. Portanto, agora importa discutir esta doutrina exaustivamente; e eis por que se impõe discuti-la, para que nos lembremos de que este é o ponto principal sobre o qual a religião se sustém, razão por que devemos devotar-lhe maior atenção e cuidado. Ora, como não tens nenhum fundamento sobre o qual a salvação te seja firmada, salvo se antes de tudo apreendas em que posição estejas diante de Deus e de que natureza seu juízo é em relação a ti, assim também não tens fundamento sobre o qual possas erigir a piedade para com Deus. Mas sobre a necessidade de se conhecer isso transparecerá melhor do próprio conhecimento.

João Calvino